Moscou, 29 de Fevereiro de 2016
A neve caia furiosamente do lado de fora da minha janela enquanto eu ainda lutava contra o insistente despertador. Era meu primeiro dia pós férias. Precisava estar àquela altura na Clínica Densey o quanto antes. Meu supervisor havia me mandado centenas de sms só na noite passada me lembrando de não me atrasar. E aqui estou eu. Atrasada. Tratei de me arrumar o mais depressa possível para retornar de volta ao velho monótono dia-a-dia. Estava na cozinha pensando em comer algo quando Jack estava ligando pela oitava vez naquela manhã e eu nem sequer atendi nenhuma das ligações. Deixei o café da manhã pra lá e sai às pressas em direção à garagem. Me deparei com a neve fria e pesada cobrindo praticamente todos os pneus do meu carro. Se ousasse sair com aquela neve prendendo, com certeza ficaria presa na estrada por horas. Enfiei o cachecol dentro do casaco e enfrentei o vento gelado que batia em meu rosto violentamente. A caminhada era curta, mas me pareceu horas caminhando sob aquelas circunstâncias. Finalmente pude vê a fachada da Clínica reluzindo no nublado centro de Moscou.
- Cloe! - animou-se uma recepcionista na qual não recordo o seu nome.
- Olá... - falei timidamente.
- Jack está a sua procura desde cedo. Aguarda você em sua sala! - disse eufórica. Com certeza era seu primeiro dia de trabalho e uma das primeiras tarefas dadas pelo chefe.
Mexi a cabeça entendendo o recado e apressei os passos. No caminho pude observar minha segunda casa. O clima era o mesmo, as pessoas eram familiares, boa parte dos pacientes que estavam na espera para serem atendidos já haviam passado por mim no ínicio das avaliações. Assim que passei por toda ala e me aproximei da porta do meu supervisor, senti uma sensação estranha e até mesmo nova brotando dentro de mim. Medo?! Dei risada com o absurdo e tratei de despachar da minha mente. Bati duas vezes na porta e pude ouvir meu nome sendo chamado do outro lado.
- Jack, quanto tempo! - mantive a formalidade, ainda tentava lutar contra a apreensão sem sentido.
- Ora Cloe, de volta para nós finalmente. Como foi de férias? - disse sentado em sua mesa com uma única pasta do meu novo paciente de cabeça para baixo.
- Ótimas - encarei a pasta - Pude visitar meus pais e aproveitar um pouco de Moscou.
- Isso é muito bom! Muito mesmo. - disse nervoso - E sua mente? - Jack nos fazia essa pergunta todo dia, como se os problemas dos nossos pacientes fossem tirar nosso cérebro da devida ordem natural.
- Em seu perfeito estado. - falei. Jack sorriu e logo encarou a pasta, assim como eu estava fazendo.
- Isso é para mim, né... - dei risada tentando disfarçar em vão minha apreensão.
- É-é... Sabe Cloe, você de volta ao trabalho, não seria ótimo ter um caso diferente em mãos?
Encarei Jack tentando decifrar seu semblante.
- O que há? - puxei a pasta, mas ele a agarrou - Jack! - repreendi.
- Cloe, preciso de você! Dê sua palavra. Você é a única capaz, na verdade, se você disser não, eu não sei como farei...
-... Só me dê a pasta! - falei forte. Ele assim o fez. Ergui a pasta para que pudesse olhar sua capa misteriosa e então me deparei com a cor. Nova, rara e inteiramente minha.
- É um caso raro. - tentou se explicar.
- Mas é claro que é! - gritei - É preta! A pasta é preta! - falei duas vezes me sentindo fora de si. Respirei fundo tentando me recompor.
- Você é a única que pode, Harris. - tentou me incentivar.
Olhei feio para ele e então me concentrei no objeto. Li todos os dados do novo paciente rapidamente me concentrando em sua fotografia e seu nome. Homem, bonito, aparentemente normal, mas com um sério problema mental.
- O nome dele é Connor Bouchard. É obcecado pelos seus próprios sonhos. Como se fosse um drogado, dependente de sua droga. Na minha opinião a vida na qual ele criou deve ser muito mais interessante pelo fato de sua vida pessoal ser uma droga. Um fracasso.
- A Psicologia é exata. Não se trata de opiniões, Jack. Não tente ajudar um paciente neste estágio baseando-se no seu achismo. Essa ciência é inteira de comprovações. - falei.
- É por isso que você é perfeita, Harris! - Jack sempre achou que encher minha bola significasse que eu estaria de acordo com qualquer coisa que ele propusesse. Então eu sempre tinha que fazer jogo duro.
- Preciso de mais informações. - falei. Nunca acreditei nas descrições superficiais que a Clínica nos passava. Quando eu ia atrás das informações por conta própria, automaticamente discordava de toda vírgula que tinha nas pastas dos pacientes.
- Ok.
- Preciso vê-lo.
- Irei levá-la até ele. - tentou esconder o alívio.
Caminhamos juntos até minha sala. Jack parou ao lado da maçaneta indicando que eu abrisse a porta. Girei a maçaneta e Jack fez um sinal de As damas primeiro. Revirei os olhos e entrei na sala. O homem estava de costas observando o janelão que mostrava todo o centro de Moscou nublado e gelado. Abracei a pasta e me aproximei do homem calmamente, olhando pela mesma paisagem.
- Eu gosto desse clima. Me trás paz, até mesmo uma alegria incomum. - falei ainda olhando para o céu nublado - As pessoas normais são felizes em dias de sol, calor e eu me sinto fora dos eixos.
- A doutora se considera anormal? - continou olhando para o céu.
- Boa parte do tempo. - permaneci séria.
- Connor... - tossiu Jack.
O senhor Bouchard olhou para Jack na espera, assim como eu.
- Esta é a Doutora Harris, será a pessoa na qual você confiará.
- Confiança tem que ser merecida, senhor Jack. - o homem falou.
- Cloe! - falei um pouco amistosa, cortando a provável discurssão desnecessária - Meu nome é Cloe Harris, senhor Bouchard. Mas me chame de Cloe, por favor. Jack não quis ser mandão, é o jeito dele de dizer que passarei boa parte do seu tempo com você.
Connor Bouchard me olhou como se tivesse tentando me analisar, apesar de ser do meu conhecimento que ele não era nenhum profissional da área, era como se fosse mesmo possível que Connor estivesse não só analisando, mas decifrando cada palavra dita por mim.
- Cloe. - ergueu a mão para me cumprimentar depois de um tempo - Me chame de Connor, por favor.