Acordei, desta vez com os telefonemas exaustivos de Jack. E eu nem estava atrasada.
- Que foi? - falei.
- Preciso de ajuda com a paciente Kim. Aquela que passou por você antes de você sair de férias. O marido disse que ela anda se mutilando e quando perguntamos a ela o porquê, ela diz que não sabe.
- Já tentou a hipnose? - levantei da cama deixando o celular sob a cômoda.
- Hm...
Sempre questionei o diploma de Jack Klyan. Uma por não ter a noção mínima de lidar com pacientes de grau 1. Kim era uma boa mulher com problema de bipolaridade. Seu lado bom era muito divertido, Kim tem o dom de deixar as pessoas tão confortáveis em sua presença que tenho a convicção que o seu lado mal iria adorá-la. Enquanto que seu lado mal faz o caos em sua vida a ponto de deixá-la... Sonâmbula. Às vezes defino seu estado transitório como um apagão provisório ou pane no Sistema Neurológico. A bipolaridade pode ter seus diferentes graus e fazer o estrago de diversas maneiras muito criativas e dez vezes mais deprimentes.
- Hipnose, Jack! - falei outra vez.
- Nunca fiz isso, Cloe.
- Todos os estudantes de Psicologia no terceiro ano de estudo, e ao longo do quarto e quinto ano, aprendem tanto a teoria como a prática. Impossível você não saber! - dei risada para mim mesmo, impedindo Jack de ouvir.
- Preciso de você. - insistiu.
- Vai me pagar hora extra? - falei indo até o celular, pronta para desligar.
- Cloe, estou falando sério! - resmungou.
- É, Jack... - olhei para a janela fixando minhas atenções para o lado de fora - Eu também! - desliguei o celular indo até a porta. Nevava outra vez, as ruas estavam vazias. Minhas atenções foi até um garoto que estava parado em frente a minha casa com um jornal em mãos. Sempre o via parado, entretido por algo.
- Olá... - cruzei os braços tentando me proteger do frio.
- Seu jornal. - ergueu para mim.
- Obrigada... Sempre o vejo por aqui. Como é seu nome? - perguntei.
Ele me olhou tão intensamente que achei aquele olhar familiar demais.
- Como você se chama? - sorri desta vez.
- Seu nome... Cloe, né?!
Fiquei atordoada com a afirmação, pelo fato de estar tão convicto daquilo.
- Como?! - meu celular tocava outra vez.
- Preciso ir. Tenha uma excelente manhã, senhora Harris.
E então o garoto saiu.
Demorei para atender tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Olhei finalmente para o visor.
- Connor? - perguntei sem ter certeza se era ele mesmo.
- Doutora? - perguntou ainda duvidando se era eu mesma a dona do número que havia ligado na noite passada.
- Sim? - revirei os olhos e entrei novamente, fugindo do frio agoniante.
Me arrumei depressa, agoniada com o início daquela manhã. Estava irritada e não queria fazer nenhuma espécie de meditação. Às vezes a raiva faz bem, nos faz pensar e principalmente, sentir a nossa frustração. Connor havia pedido que eu fosse vê-lo naquela manhã sendo que ele teria uma consulta comigo no dia seguinte. Mais um sonho real e ele não podia esperar por mais um dia. E ainda teve a audácia de dizer que eu tinha uma tatuagem sendo que nem era uma tatuagem de verdade. Bom, a principio, era uma, mas servia como uma proteção. Jack não sabia lidar com uma bipolaridade no grau mínimo e um estranho que sabia meu endereço e meu nome me perseguia toda manhã. Segui as instruções do meu paciente e cheguei ao prédio em que ele morava duas horas depois. Passei na Clínica para medicar Kim e prometi que iria ser mais útil no dia seguinte. O prédio de Connor estava acabado, mas era uma casa apropriada. Passei pelo estúdio sem nem sequer olhá-lo.
- Se eu soubesse disso teria ligado duas horas antes. - resmungou.
- Sou sua psicóloga, não seu guarda-costas. Estou aqui, isso que importa. - falei brava demais.
- Eita. - entrei sem ele precisar dizer.
Regulei todo o ambiente com meu faro aguçado. Uma casa comum, com uma televisão ligada no canal de esportes, pizza velha exposta na mesa de centro e algumas cervejas vazias. Caminhei mais um pouco até encontrar seu quarto, ou o que deveria ser seu quarto.
- Não é meu guarda-costas, mas parece um cão farejador. - ele vinha atrás de mim.
- Faz parte do meu trabalho. Posso? - perguntei por perguntar, antes dele responder eu já estava entrando em seu quarto.
- Epa...
Dei graças a Deus que não tivesse nenhuma mulher pelada ou qualquer indício de alguma presença feminina depravada naquele lugar.
- Interessante. - falei ao olhar uma coleção de livros. Todos com o título Sonhos e Física estampados em suas capas.
Ele me seguia.
- Sua doença tornou-se seu vício.
- Eu sei. - falou rapidamente.
- Como foi seu sonho, Connor?
Ele me olhou quase que tentando decifrar as intenções da minha pergunta.
- Um deserto, como sempre.
- Essa é a paisagem principal, antes da mudança?
- Como assim? - ele ficou surpreso.
- Uma realidade é interessante por não ser repetitiva. Ela altera o local, as pessoas, o clima e até mesmo as emoções. Se o seu sonho tornou-se a sua realidade, então ele passa pelas mesmas alterações. Um deserto é sempre o ponto inicial e você sabe que é o sonho porque é de lá que você começa a sua nova jornada diária.
Ele fechou os braços balançando a cabeça.
- Pode ser. O frio e o calor era algo novo na paisagem, pode ser, Doutora. - disse me olhando.
- Continue, por favor. - me sentei na cadeira próxima a sua cama.
- Depois do ponto inicial, eu me vi caindo em um poço escuro. Deveria gritar, pedir por socorro, mas de alguma forma aquilo me pareceu tão...
- Real?
- Não! - ignorou minha tese - Como um abraço de uma mãe depois de um longo dia longe de seu filho único. Como um beijo de despedida de um casal apaixonado.
- Algo familiar? - juntei as mãos.
- Não, como se fosse algo que eu não tivesse.
- Será que você compensa em seus sonhos aquilo que não teve em sua vida real?
- Minha vida real é o meu sonho, Doutora.
- Então o que é isso aqui, Connor?
Esperei que ele respondesse, mas pude ter certeza de algo. Connor nunca havia feito essa pergunta antes. Ele tinha convicção da realidade que seus sonhos tinha para ele, mas o que deveria ser sua realidade, para Connor era o desconhecido. Ele levou as mãos ao rosto ainda me encarando.
- O que é isso aqui, Cloe? Digo... Para você. - perguntou com cuidado.
- É a vida. A verdade. O fato. A realidade. Onde temos o poder de mudar o rumo de tudo.
- Isso é o que eu tenho em meus sonhos. Entendeu?
- Claro! E é o que você tem aqui, mas ainda não percebeu.
- Cloe, eu tenho uma vida comum, posso beber hoje ou beber nunca mais. Posso me mudar para o México ou para a parte mais rica de Moscou. Sei lá. Em meus sonhos, é como se eles mesmo tivessem vida e me conduzissem, mas eu tenho a autoridade de dar a última palavra.
- Eu me sinto assim em meus sonhos, em poucos claro. - falei rapidamente. Connor ficou perplexo.
- Sério?! - perguntou curioso.
- De fato é um sonho, mas meu consciente, a parte principal do meu Sistema Nervoso acorda aos poucos fazendo com o que meus sentidos voltem. Eu estou no sonho sendo conduzida, mas eu passo a decidir. Logo, deixo de estar em um sonho e passo a estar na minha própria imaginação. Eu tenho a escolha de sonhar literalmente ou de imaginar o desfecho, entendeu?
- Tente não introduzir a ciência nisso, Cloe. - ele estava furioso.
- Não é a ciência, Connor. Eu nunca a uso em minhas análises. - dei risada com o absurdo.
- Como?!
- Sou psicóloga. Não é pela ciência que consigo ser bem sucedida em minhas análises. É estando no mesmo barco que meus pacientes. Preciso sentir a sua dor, preciso estar junto com você, preciso vê o que você vê e juntos vamos conseguir. A ciência apenas diz em que quadro o seu problema se encaixa, somente. - falei deixando-o pensar sobre isso.
- Jack sabe que a Doutora...
- Connor! - repreendi.
- Tudo bem, então você vai vê meus sonhos? - ele parecia dez vezes mais confuso.
- Já ouviu falar da hipnose?
- Já. - deu de ombros.
- Que tal? - cruzei as pernas.
- É um jeito de me fazer dizer sim? - ele deu risada.
- Por mim. - também sorri. Era um sim.
Liguei para a recepcionista avisando que não iria à Clínica naquele dia por questões profissionais. Jack me ligou centenas de vezes, mas tratei de deixar o celular no vibra.
Pedi que Connor deitasse na cama e tive que ouvir dezenas de comentários sobre a cruzada de pernas e a cama que ele estava deitando.
- Cale a boca, Connor. - falei brava com aquela situação.
- Tudo bem. - e então calou-se.
- Agora vou conectar esses fios em sua mente e estarei vendo todas as imagens que passa em sua mente.
- Eita... - gargalhou.
- O que?
- Espere mais uns dois minutos, por favor. - pediu.
- Só vou vê a parte direita de seu cerébro, onde é feito seus sonhos, Connor. - esclareci.
- Ufa. - olhei para ele tentando oprimir minha curiosidade.
- Daqui a dez minutos estará pronto. - falei por fim.
- Que tipo de tatuagem é essa que você tem? - perguntou.
- Que?! - quase deixei o notebook escapar da mesa.
- Hmm... - ele deu risada.
- Connor!
- Cloe, dizer meu nome furiosamente sempre não vai ter muito efeito.
Ignorei por alguns minutos, mas outra vez ele aparecia.
- Fiz uma pergunta. - disse mais sereno.
- Não é da sua conta. - falei calmamente.
- Então deveria esconder o decote um pouco mais. - insistiu.
- Eu estava de cachecol!
- Deu pra vê mesmo assim.
A tatuagem estava acima do meu seio, bem no peito. Não era uma coisa chamativa, visto que era pintada de bege, mas seu contorno era preto, o que parecia algo como uma tatuagem se alguém estivesse prestando muita atenção ali.
- Não é uma tatuagem muito bonita. - ele continuava.
- Eu sei.
- Tem tantas outras que podem realçar essa região.
- É um escudo. - falei por fim.
- Tem alguma magia? - ele riu. O download estava quase no fim.
- Não, uma proteção. - falei encarando o carregamento.
- Proteção contra gente doida?
Peguei a seringa e enfiei no pescoço de Connor nenhum pouco delicada.
- Você dormirá e vai estar na sua realidade. Verei tudo. - deixei claro.
- Cloe? - seus batimentos estavam diminuindo.
- Sim?
- Proteção contra o quê?
- Contra vocês. - falei encarando para o monitor. Connor balbuciou algo indecifravél, mas já estava apagado completamente. Consegui vê o deserto, o sol e a vasta areia. Depois Connor estava em um subúrbio vazio, com um carro preto parado no meio da avenida. Vazio. Ele entrou e então estava em um banco de uma praça ao lado de uma senhora que dormia. Depois ergueu um jornal e a manchete era uma foto do meu escritório. Quando ele virou para o lado, estava eu sentada com a minha tatuagem reluzindo. Depois acordou.
- Como pode viciar em algo sem nexo? - perguntei incrédula demais.
- Não queria que visse o sentido. - tirou os fios devagar.
- O quê?! - perguntei brava.
- Eu posso conduzir o sonho. Posso te mostrar de tudo um pouco, o que eu bem quiser.
- Não teve graça! Não é toda hora que posso te conduzir para a hipnose.
- Isso não vai funcionar, Cloe! - gritou - Você quer vê o que eu posso te mostrar, ok. Mas onde que está a cura nisso?
- Cura? Eu nunca falei em cura, Connor!
Ele estava furioso e eu também.
- Foi um erro. Saia daqui! - disse ríspido. Encarei ele e sai, sem precisar ouvir outra vez aquilo de novo.