quinta-feira, 10 de março de 2016

Capítulo 5: Deslize

Acordei, desta vez com os telefonemas exaustivos de Jack. E eu nem estava atrasada. 
- Que foi? - falei.
- Preciso de ajuda com a paciente Kim. Aquela que passou por você antes de você sair de férias. O marido disse que ela anda se mutilando e quando perguntamos a ela o porquê, ela diz que não sabe. 
- Já tentou a hipnose? - levantei da cama deixando o celular sob a cômoda.
- Hm... 
Sempre questionei o diploma de Jack Klyan. Uma por não ter a noção mínima de lidar com pacientes de grau 1. Kim era uma boa mulher com problema de bipolaridade. Seu lado bom era muito divertido, Kim tem o dom de deixar as pessoas tão confortáveis em sua presença que tenho a convicção que o seu lado mal iria adorá-la. Enquanto que seu lado mal faz o caos em sua vida a ponto de deixá-la... Sonâmbula. Às vezes defino seu estado transitório como um apagão provisório ou pane no Sistema Neurológico. A bipolaridade pode ter seus diferentes graus e fazer o estrago de diversas maneiras muito criativas e dez vezes mais deprimentes. 
- Hipnose, Jack! - falei outra vez. 
- Nunca fiz isso, Cloe. 
- Todos os estudantes de Psicologia no terceiro ano de estudo, e ao longo do quarto e quinto ano, aprendem tanto a teoria como a prática. Impossível você não saber! - dei risada para mim mesmo, impedindo Jack de ouvir.
- Preciso de você. - insistiu. 
- Vai me pagar hora extra? - falei indo até o celular, pronta para desligar.
- Cloe, estou falando sério! - resmungou.
- É, Jack... - olhei para a janela fixando minhas atenções para o lado de fora - Eu também! - desliguei o celular indo até a porta. Nevava outra vez, as ruas estavam vazias. Minhas atenções foi até um garoto que estava parado em frente a minha casa com um jornal em mãos. Sempre o via parado, entretido por algo.
- Olá... - cruzei os braços tentando me proteger do frio.
- Seu jornal. - ergueu para mim. 
- Obrigada... Sempre o vejo por aqui. Como é seu nome? - perguntei.
Ele me olhou tão intensamente que achei aquele olhar familiar demais. 
- Como você se chama? - sorri desta vez.
- Seu nome... Cloe, né?! 
Fiquei atordoada com a afirmação, pelo fato de estar tão convicto daquilo. 
- Como?! - meu celular tocava outra vez.
- Preciso ir. Tenha uma excelente manhã, senhora Harris. 
E então o garoto saiu. 
Demorei para atender tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Olhei finalmente para o visor. 
- Connor? - perguntei sem ter certeza se era ele mesmo.
- Doutora? - perguntou ainda duvidando se era eu mesma a dona do número que havia ligado na noite passada. 
- Sim? - revirei os olhos e entrei novamente, fugindo do frio agoniante. 

Me arrumei depressa, agoniada com o início daquela manhã. Estava irritada e não queria fazer nenhuma espécie de meditação. Às vezes a raiva faz bem, nos faz pensar e principalmente, sentir a nossa frustração. Connor havia pedido que eu fosse vê-lo naquela manhã sendo que ele teria uma consulta comigo no dia seguinte. Mais um sonho real e ele não podia esperar por mais um dia. E ainda teve a audácia de dizer que eu tinha uma tatuagem sendo que nem era uma tatuagem de verdade. Bom, a principio, era uma, mas servia como uma proteção. Jack não sabia lidar com uma bipolaridade no grau mínimo e um estranho que sabia meu endereço e meu nome me perseguia toda manhã. Segui as instruções do meu paciente e cheguei ao prédio em que ele morava duas horas depois. Passei na Clínica para medicar Kim e prometi que iria ser mais útil no dia seguinte. O prédio de Connor estava acabado, mas era uma casa apropriada. Passei pelo estúdio sem nem sequer olhá-lo.
- Se eu soubesse disso teria ligado duas horas antes. - resmungou.
- Sou sua psicóloga, não seu guarda-costas. Estou aqui, isso que importa. - falei brava demais.
- Eita. - entrei sem ele precisar dizer.
Regulei todo o ambiente com meu faro aguçado. Uma casa comum, com uma televisão ligada no canal de esportes, pizza velha exposta na mesa de centro e algumas cervejas vazias. Caminhei mais um pouco até encontrar seu quarto, ou o que deveria ser seu quarto. 
- Não é meu guarda-costas, mas parece um cão farejador. - ele vinha atrás de mim. 
- Faz parte do meu trabalho. Posso? - perguntei por perguntar, antes dele responder eu já estava entrando em seu quarto.
- Epa... 
Dei graças a Deus que não tivesse nenhuma mulher pelada ou qualquer indício de alguma presença feminina depravada naquele lugar. 
- Interessante. - falei ao olhar uma coleção de livros. Todos com o título Sonhos e Física estampados em suas capas. 
Ele me seguia. 
- Sua doença tornou-se seu vício. 
- Eu sei. - falou rapidamente. 
- Como foi seu sonho, Connor? 
Ele me olhou quase que tentando decifrar as intenções da minha pergunta. 
- Um deserto, como sempre. 
- Essa é a paisagem principal, antes da mudança? 
- Como assim? - ele ficou surpreso.
- Uma realidade é interessante por não ser repetitiva. Ela altera o local, as pessoas, o clima e até mesmo as emoções. Se o seu sonho tornou-se a sua realidade, então ele passa pelas mesmas alterações. Um deserto é sempre o ponto inicial e você sabe que é o sonho porque é de lá que você começa a sua nova jornada diária. 
Ele fechou os braços balançando a cabeça.
- Pode ser. O frio e o calor era algo novo na paisagem, pode ser, Doutora. - disse me olhando.
- Continue, por favor. - me sentei na cadeira próxima a sua cama. 
- Depois do ponto inicial, eu me vi caindo em um poço escuro. Deveria gritar, pedir por socorro, mas de alguma forma aquilo me pareceu tão... 
- Real? 
- Não! - ignorou minha tese - Como um abraço de uma mãe depois de um longo dia longe de seu filho único. Como um beijo de despedida de um casal apaixonado. 
- Algo familiar? - juntei as mãos. 
- Não, como se fosse algo que eu não tivesse.
- Será que você compensa em seus sonhos aquilo que não teve em sua vida real?
- Minha vida real é o meu sonho, Doutora.
- Então o que é isso aqui, Connor?
Esperei que ele respondesse, mas pude ter certeza de algo. Connor nunca havia feito essa pergunta antes. Ele tinha convicção da realidade que seus sonhos tinha para ele, mas o que deveria ser sua realidade, para Connor era o desconhecido. Ele levou as mãos ao rosto ainda me encarando. 
- O que é isso aqui, Cloe? Digo... Para você. - perguntou com cuidado.
- É a vida. A verdade. O fato. A realidade. Onde temos o poder de mudar o rumo de tudo.
- Isso é o que eu tenho em meus sonhos. Entendeu?
- Claro! E é o que você tem aqui, mas ainda não percebeu.
- Cloe, eu tenho uma vida comum, posso beber hoje ou beber nunca mais. Posso me mudar para o México ou para a parte mais rica de Moscou. Sei lá. Em meus sonhos, é como se eles mesmo tivessem vida e me conduzissem, mas eu tenho a autoridade de dar a última palavra.
- Eu me sinto assim em meus sonhos, em poucos claro. - falei rapidamente. Connor ficou perplexo.
- Sério?! - perguntou curioso.
- De fato é um sonho, mas meu consciente, a parte principal do meu Sistema Nervoso acorda aos poucos fazendo com o que meus sentidos voltem. Eu estou no sonho sendo conduzida, mas eu passo a decidir. Logo, deixo de estar em um sonho e passo a estar na minha própria imaginação. Eu tenho a escolha de sonhar literalmente ou de imaginar o desfecho, entendeu?
- Tente não introduzir a ciência nisso, Cloe. - ele estava furioso.
- Não é a ciência, Connor. Eu nunca a uso em minhas análises. - dei risada com o absurdo.
- Como?! 
- Sou psicóloga. Não é pela ciência que consigo ser bem sucedida em minhas análises. É estando no mesmo barco que meus pacientes. Preciso sentir a sua dor, preciso estar junto com você, preciso vê o que você vê e juntos vamos conseguir. A ciência apenas diz em que quadro o seu problema se encaixa, somente. - falei deixando-o pensar sobre isso.
- Jack sabe que a Doutora...
- Connor! - repreendi.
- Tudo bem, então você vai vê meus sonhos? - ele parecia dez vezes mais confuso.
- Já ouviu falar da hipnose?
- Já. - deu de ombros.
- Que tal? - cruzei as pernas. 
- É um jeito de me fazer dizer sim? - ele deu risada.
- Por mim. - também sorri. Era um sim. 
Liguei para a recepcionista avisando que não iria à Clínica naquele dia por questões profissionais. Jack me ligou centenas de vezes, mas tratei de deixar o celular no vibra.
Pedi que Connor deitasse na cama e tive que ouvir dezenas de comentários sobre a cruzada de pernas e a cama que ele estava deitando.
- Cale a boca, Connor. - falei brava com aquela situação.
- Tudo bem. - e então calou-se. 
- Agora vou conectar esses fios em sua mente e estarei vendo todas as imagens que passa em sua mente. 
- Eita... - gargalhou.
- O que? 
- Espere mais uns dois minutos, por favor. - pediu.
- Só vou vê a parte direita de seu cerébro, onde é feito seus sonhos, Connor. - esclareci.
- Ufa. - olhei para ele tentando oprimir minha curiosidade.
- Daqui a dez minutos estará pronto. - falei por fim.
- Que tipo de tatuagem é essa que você tem? - perguntou.
- Que?! - quase deixei o notebook escapar da mesa. 
- Hmm... - ele deu risada.
- Connor! 
- Cloe, dizer meu nome furiosamente sempre não vai ter muito efeito.
Ignorei por alguns minutos, mas outra vez ele aparecia.
- Fiz uma pergunta. - disse mais sereno.
- Não é da sua conta. - falei calmamente.
- Então deveria esconder o decote um pouco mais. - insistiu.
- Eu estava de cachecol! 
- Deu pra vê mesmo assim. 
A tatuagem estava acima do meu seio, bem no peito. Não era uma coisa chamativa, visto que era pintada de bege, mas seu contorno era preto, o que parecia algo como uma tatuagem se alguém estivesse prestando muita atenção ali.
- Não é uma tatuagem muito bonita. - ele continuava.
- Eu sei. 
- Tem tantas outras que podem realçar essa região.
- É um escudo. - falei por fim.
- Tem alguma magia? - ele riu. O download estava quase no fim. 
- Não, uma proteção. - falei encarando o carregamento.
- Proteção contra gente doida? 
Peguei a seringa e enfiei no pescoço de Connor nenhum pouco delicada. 
- Você dormirá e vai estar na sua realidade. Verei tudo. - deixei claro.
- Cloe? - seus batimentos estavam diminuindo.
- Sim? 
- Proteção contra o quê? 
- Contra vocês. - falei encarando para o monitor. Connor balbuciou algo indecifravél, mas já estava apagado completamente. Consegui vê o deserto, o sol e a vasta areia. Depois Connor estava em um subúrbio vazio, com um carro preto parado no meio da avenida. Vazio. Ele entrou e então estava em um banco de uma praça ao lado de uma senhora que dormia. Depois ergueu um jornal e a manchete era uma foto do meu escritório. Quando ele virou para o lado, estava eu sentada com a minha tatuagem reluzindo. Depois acordou. 
- Como pode viciar em algo sem nexo? - perguntei incrédula demais.
- Não queria que visse o sentido. - tirou os fios devagar.
- O quê?! - perguntei brava.
- Eu posso conduzir o sonho. Posso te mostrar de tudo um pouco, o que eu bem quiser.
- Não teve graça! Não é toda hora que posso te conduzir para a hipnose.
- Isso não vai funcionar, Cloe! - gritou - Você quer vê o que eu posso te mostrar, ok. Mas onde que está a cura nisso?
- Cura? Eu nunca falei em cura, Connor! 
Ele estava furioso e eu também.
- Foi um erro. Saia daqui! - disse ríspido. Encarei ele e sai, sem precisar ouvir outra vez aquilo de novo.

Capítulo 4 - O Sonho

  Era três e meia da manhã quando voltei para casa, por mais que estivesse sob efeitos fortes de toda e qualquer substância alcoólica, não me saia da cabeça diversas formas e motivos, alguns até impossíveis e bizarros. Ela tinha me ligado? Por quê? Isso não saia da minha cabeça. Eu não podia julgar Harris, quer dizer... ela trabalha como psicóloga e deve ser algo estressante lhe dar com pessoas "desequilibradas" emocionalmente ou mentalmente, e iam apenas para ouvir os mesmos malditos sermões.
  Era por volta das nove e meia quando a doutora tinha me ligado e mais uma vez sentia martelar meus pensamentos quando tentava entender o porque daquilo. A explicação mais "lógica"que eu tinha naquele momento é que ela queria se divertir, afinal. Fora da clínica ela também tem uma vida social... ou não. Me adiantei com um banho gelado, não comi nada e fui deitar deixando-me ser assombrado mais uma vez por aquele sonho longínquo, eu queria tocá-lo mas estava longe demais. Não tinha uma forma exata mas eu sabia muito bem pelo que ser atraído, tudo.
  Havia sempre um deserto extenso e árido, seguia de norte a sul a repulsividade do lugar, seguia para os dois cantos, desolada e silenciosa, exceto pelo uivo solitário do vento. No meio do deserto a natureza se mostrava majestosa e por partes bem fora do comum, pois no meio do deserto se abrigava montanhas com os topos cobertos de neve e vales escuros e tenebrosos, talvez eu seja um pouco sádico e atraído pelo perigo do desconhecido. Há, também, rios que formam corredeiras entre os canyon's; também, tinha, grandes e espaçosas planícies cobertas com areia e neve. Era tudo uma mistura com alto teor psicodélico, mas nada era colorido. Tinha cor e paisagem de como deveria ser, o estranho era apenas calor e frio se juntarem num lugar só ao mesmo tempo.
  Aconteceu, antes que me desse conta me via caindo em um poço escuro, eu deveria gritar ou acordar se forma súbita, mas era algo tão reconfortante... tão bom, mas?! Como eu conseguia está ciente de tudo aquilo, como eu sabia que deveria acordar em meio a um sonho, eu estou preso. É algo tão bom quanto o abraço de uma mãe ou da pessoa a amada, como beijar os lábios de alguém que você gosta e sabe que vai ficar bem com aquilo. Por mais que hesitasse eu não queri acordar, mas eu queria, queria. Fique, fique, FIQUE! A voz não existia, mas eu insistia em ficar.
  Quando finalmente me dei conta estava de olhos abertos e o pescoço travado em cima da cama, meu travesseiro estava bem molhado, eu tinha suado muito durante todo esse tempo. O relógio marcava seis e quarenta e sete da manhã, dois minutos de sonhos equivaleram boas horas aqui fora. Eu já sabia o que tinha que fazer e resgatei meu celular do chão, no pé da cama e liguei pro último número que havia me ligado. Houve de quatro a cinco chamadas antes de Cloe me atender. Sinceramente eu estava esperando não ser atendido ou ser atendido com uma resposta bem fria e ríspida mas tudo que veio foi.
- Connor? - parando finalmente para notar a voz de Cloe era suave e chamativa.
- Doutora?
- Sim? - ela respondeu do outro lado da linha. Não soava ríspida mas eu captava bem os graves de frieza em sua voz, talvez eu merecesse aquilo.
- A senhorita já está acordada?
- Eu geralmente acordo cedo, daqui a uma hora vou para clínica. Francamente Connor, me ligou para perguntar se estou acordada e não leve a mão, formalidade é apenas no trabalho.
  Ficamos por poucos segundos em silêncio, eu esperei que ela dissesse mais algo, mas nada aconteceu.
- Douto... digo, Cloe. Aconteceu denovo.
- O quê aconteceu? - ela parecia um pouco mais ansiosa.
- O sonho... tive ele hoje,
- E não pode esperar para a consulta de amanhã? Eu não faço consultas na casa dos meus pacientes.
- Eu vou ser bem direto. - endireitei a postura e suspirei, antes e falar - Está fazendo cinco graus, todas as manhãs de Moscou são geladas, e eu acordei com meu travesseiro molhado de suor, não é normal você ver uma pessoa suada nesse frio maldito e acredite doutora... eu não ligo pra uma mulher a não ser que seja de extrema importância e além do mais, não estou querendo atenção e sim ajuda.
 Me surpreendi quando ela ainda estava na linha.
- Aqui está meu endereço. Rua dezesseis 390, bairro Nigthgale. Próximo ao décimo sexto distrito policial e... eu vi sua tatuagem no pulso, você fez no mesmo estúdio que eu trabalho. Eu moro duas ruas atrás do estúdio.
 Desliguei o celular sem esperar sua resposta, mas ainda sim esperado veemente sua chegada.

terça-feira, 1 de março de 2016

Capítulo 3: Connor Bouchard

A conversa havia sido muito abaixo do que eu pretendia. A mente de Connor é como uma pedra e para ter a chance de perfurar cada parte para melhor compreender a peça rara em mãos, é necessário ter a permissão do dono, o que para mim já estava ficando complicado demais para se manter na zona profissional. 
- Olá... - sussurrei para a recepcionista que havia me cumprimentado mais cedo. 
- Doutora Harris! - disse felizarda demais. 
- Você viu um homem sair daqui agora a pouco? - perguntei direta demais.
- Hm... - ela fez beicinho decepcionada consigo mesmo da provável primeira pisada de bola.
- Não tem problema se não lembrar. Estou apenas checando. 
- Saiu um homem tem nem cinco minutos daqui. Deixou o crachá de paciente e saiu. 
- Sabe se ele pegou algum meio de transporte? - insisti.
- Não, senhora... - outro beicinho. 
- Tudo bem! - dei as costas para a moça. Pude ouvir alguns fungados suspeitos e tratei de melhorar o dia de alguém - Você foi ótima, viu?! - esbocei meu melhor sorriso forçado.
- Como?! - impressionou-se.
- Você foi a única capaz de se recordar do último paciente a sair da Clínica. Meus Parabéns! - menti descaradamente.
- SÉRIO? 
- Cloe! - Jack gritava no hall que dava acesso ao corredor de sua sala. 
- Preciso ir. - sai às pressas agradecendo mentalmente à Jack por me tirar daquela situação bizarra e odiando a próxima conversa.

Entrei na sala e vi Jack andando de um lado para o outro. 
- Então, eu não falei? - ele começou.
- O quê? 
- Ele é um drogado. Alguma das substâncias devem ter mexido tanto com os neurônios dele que pode ter trazido essa falta de lucidez...
-... Porque você não faz o trabalho todo então? - murmurei. 
- Cloe, está na cara!
- Eu não tirei minhas próprias conclusões ainda, Jack.
- Achei que a Psicologia não se baseiasse em opiniões. - deu risada.
- Realmente. Por isso preciso comprovar as teses cientificamente, se você deixar, claro. - ironizei.
- O que ele te disse? - perguntou.
Olhei para a janela outra vez. 
- Nada. - disse derrotada.
- E acha que irá conseguir? 
- Você confia em mim? - perguntei sentindo uma onda de excitação. 
- Harris... 
Continuei a olhá-lo séria, na espera de sua confirmação. Só precisava do sim.
- Confio. - balançou a cabeça negativamente. 
Sorri para ele e em seguida voltei a me concentrar no dossiê de Connor Bouchard feito exclusivamente por mim em quinze minutos de conversa superficial com meu novo paciente. 
 
Cheguei em casa por volta das nove da noite, a neve e o frio conseguiram se superar. Passei o resto do meu dia pensando no caso de Connor. Minha secretária havia me passado a agenda de todo o mês e nele só continha consultas com Connor a cada dois dias, incluindo o final de semana. Não jantei, preferindo ir direto para o banho. Deitei na cama com o celular em mãos. Disquei os números com exatidão que continha no Dossiê. 
- Alô?! - uma voz embargada.
- Olá, está bebendo? - perguntei.
- Quem é?! - disse áspero.
- Responda minha pergunta, Connor. - insisti. Ouvi alguns resmungos como se ele próprio não estivesse acreditando na minha ligação àquela hora da noite. 
- Não é da sua conta!

E então desligou na minha cara. Desliguei o telefone sem dar a chance dele retornar. Com as luzes apagadas, televisão desligada, pude finalmente ficar a sós com minha própria mente. Connor Bouchard não era um caso difícil de ser solucionado, mas era um caso tão isolado que me obrigava a fazer certas coisas que não é necessariamente tarefa de uma psicóloga. Minha curiosidade e a tentação em ajudar as pessoas fazendo tudo ao meu alcance sempre falou mais alto, e agora, não teria como ser diferente. 

Capítulo 2 - A conversa


- Então, vou deixá-los a sós. - pude ver um rápido olhar de preocupação de Jack para a doutora, que mal pareceu se importar.
- Então, Connor. Vamos conversar. - a doutora forçou um sorriso amigável no rosto que eu não respondi e apresentou a poltrona onde eu me sentaria. Assim fiz, ela recolheu um pequeno bloco de notas de cima de sua mesa e sentou defronte para mim com as pernas cruzadas.
- Tudo bem, Connor. Me fale da sua vida, acontecimentos até aqui.
Eu continuava distraído. Apesar de ter frequentado vários outros consultórios de psicólogos e psicólogas, esse lugar me parecia um pouco mais despojado e espontâneo. Por mais que a doutora Cloe forçasse o sorriso era nitidamente um tom agradável desenhado em seus lábios, não notei se era uma mulher Russa ou não, entretanto, a bela era bem acentuada. Algo nos olhos daquela mulher diziam que hoje e esse momento, era o lugar que eu devia estar hoje. Ou sera simples perspectiva de pensamento? Talvez.

- Connor... então? - ela firmou a postura na poltrona. Ela ainda me olhava, porém agora sem sorriso.
- Ahm?
- Okey. Vamos começar do começo, certo?! Sua vida, me fale dela.
- Eu vim de Liverpool, morava em uma casa grande com meus pais, tios, e avôs. Sou filho único.
- Algo mais? Na sua ficha diz que teve envolvimento com drogas durante a adolescência. - mesmo que não sorrisse. A doutora disse aquilo com um ligeiro toque presunçoso - Pode me dizer sobre isso?
- Com dezesseis anos comecei a andar com os traficantes da minha escola. Eu queria fazer algum dinheiro, algo meu.
- Então procurou isso, fora das margens da lei, hrm... entendi. - ela se endireitou na poltrona e anotou algo no bloco de notas.
- Não me julgue por algo que fiz no passado, doutora. E como a senhorita vê, não estou mais envolvido com isso.
- Alguma clínica de reabilitação, talvez?
- Vontade própria. Em um dia eu estava numa esquina, colocando todo tipo de substâncias no corpo, então... simplesmente me levantei e fui pra casa. No dia seguinte sai para procurar um emprego.

A doutora anotou mais alguma coisa em seu bloco de notas.
- E como você e sua família vieram para Moscou? - até o momento percebi que Cloe estava fazendo perguntas avulsas e "normais".
- Meu pai era da polícia federal Inglesa, e ele foi mandando para trabalhar na Rússia. A polícia cobriu os custos da viagem da nossa família.
- Então, seu envolvimento com as drogas, foi aqui mesmo, em Moscou?
- Exatamente.
- Saiu de Liverpool com quantos anos?
- A os doze anos. No ano seguinte... meu pai faleceu em trabalho.
Um silêncio desconfortável seguiu adiante na sala e tomou força por mais alguns segundos. Cloe ajustou mais uma vez a postura na poltrona e alinhou os cabelos.
- Está se sentindo desconfortável, doutora?
Ela se voltou para mim como se não acreditasse no que ouvisse. Talvez eu tivesse dito um absurdo.
- Perdão?
- O medo é relativo, doutora. Existem várias formas de se sentir medo, talvez seu medo seja de não ter me conhecido ainda, me corrija se eu estiver correto, mas não seja óbvia.
- Como o senhor disse, algo relativo não existe uma forma concreta. - eu havia acabado de lhe dar uma chave e ela captou bem. A doutora sabia fazer muito bom uso de seus recursos.
- Em qual capitulo da minha vida estamos, no fim? - questionei como se já soubesse a resposta - me diga doutora.
- A vida é feita de capítulos, um capítulo ruim não quer dizer que a vida acabou. - ela largou sua caneta e bloquinho. A forma como ela se colocou na poltrona pareceu ainda mais interessada ou simplesmente achou que eu fosse me matar.

Me limitei a sorrir, queria testar os limites da minha sexta psicóloga, só naquele ano.
- Mas quando deixamos o monstro entrar em um desses capítulos, não conseguimos nos livrar dele.
- Então é isso!? Sua linha de sonhos corriqueiros são perturbadas por um "monstro"? - ela me fitou como se tudo aquilo fosse uma maldita perca de tempo.
 - Passou muito longe, doutora.
Aquilo parecia o cúmulo para a mulher, achei que ela fosse dizer que o tempo da consulta havia acabado, mas apenas voltou a cruzar as pernas e se limitou a olhar em meus olhos.
- Entendo... então pode me dizer o que recorre nesse sonho?
Me levantei e alinhei a jaqueta no corpo.
- Não é o momento, doutora.
- Ainda temos meia-hora, Connor.
- Não se preocupe, a senhorita me instigou a voltar. Vou deixar que descubra por si mesmo.
Deixei que Cloe ficasse em silêncio na sala, não queria parecer mal educado mas eu não podia simplesmente deixar que a doutora me visse submisso ao seu seu intelecto. Por mais que algo naquela mulher tivesse mexido de alguma forma comigo, de longe emocional. Mas sim pelo psicológico. Na recepção marquei a próxima consulta para depois de amanhã. Podia afirmar que a mulher e não a doutora. Cloe Harris, havia entrado em um mundo de real psicodélica.