terça-feira, 6 de setembro de 2016

Capítulo 9: Dossiê

Não é fácil esconder algo, mas com anos de prática, escondendo nossas frustrações, receios e até mesmo nossos medos, acaba que tornando uma atitude natural. Como se não notassemos, de repente, eu viro uma capsúla na qual ninguém tem acesso. Entrar na minha mente foi um jeito prático de mostrar ao Connor de como se controlar, mas... Havia algo de muito errado. Meu paraíso do sonho sempre começava na fazenda do meu pai, meu lugar favorito, mas naquele momento eu estava sendo engolida pelos vultos negros, sentindo o que Connor sente quando passa por isso. Era algo familiar, mas nenhum pouco agradável. Quando Connor saiu mandando que eu fosse me encontrar com ele às nove em uma espécie de"encontro", eu pensei em dezenas de coisas. 

Voltei a conectar todos os fios em mim e desta vez viajei para o paraíso do meu sonho sozinha. Era um risco e as normas da clínica não autorizava esse tipo de procedimento sem que alguém estivesse presente. Mas dane-se, eu estava muito atordoada com aquilo tudo. Talvez se ficasse louca com o procedimento eu pudesse entender a loucura de Connor. 
Estava sentada no balanço quando o céu amanhecia e um lindo sol reluzia em meu rosto. As luzes solares clareavam meus cabelos castanhos, meu rosto parecia dourado, as folhas liberavam um cheiro doce e um imenso campo bem cuidado se apresentava à minha vista. De canto, a fazenda do meu pai. Após isso voltei à antiga Delegacia, com o mesmo paciente esquizofrenico. Peguei o prontuário e olhei todos os diagnósticos. E se Connor for esquizofrenico? Era uma pergunta que martelava na minha mente. Nos casos mais graves, os pacientes podem ver ou ouvir coisas que não existem. Porém do Connor era um pouco mais acentuado, a realidade era seus sonhos e seus sonhos eram conturbados para qualquer outro, menos para ele. Joguei o prontuário na mesa e voltei para a minha realidade. Verifiquei tudo e eu estava sã. Sai da sala às pressas. Era hora de pegar pesado. 

- Jack! - anunciei entrando sem nenhuma formalidade. 
- Você já foi mais educada, Cloe. - murmurou, estava cochilando na poltrona.
- Olhando o seu estado, acho que foi uma bela entrada triunfal. - joguei os arquivos em cima de sua mesa, levantando todo o pó das pastas, fazendo Jack ter um ataque de espirros.
- Santo Deus, Cloe! Isso está uma imundice. 
- É só pó, Jack. Pegue algumas luvas para nós, vamos! - prendi o cabelo num rabo de cavalo mal feito, mas o que importava é que estava preso. 
- Pra quê isso tudo? - jogou as luvas para mim. 
- São arquivos restritos de antigos pacientes da Clínica de Boston. 
- Boston?! Mas isso foi na época do naufrágio do Titanic. - bufou. 
- Sim, arquivos antigos, imundos como você mesmo disse. Por isso todo cuidado com eles, são nossos experimentos... - falei abrindo a pasta devagar. Estava amarelada, com manchas parecida como de café em toda a capa. Era um prontuário da primeira Clínica Densey fundada em Boston, em 1909, três anos antes do Titanic afundar no Atlântico. 
- Certo, pra quê isso tudo? - perguntava de novo.
- Bom, naquele tempo aparecia muitos casos sérios que a Psicológia não era tão... Precisa nos diagnósticos.
- Sim, nós evoluimos e hoje podemos entender a mente humana com mais precisão. A ciência melhorou em quase 100%.
- É, sabemos... - dei de ombros, passando as folhas até o prontuário de Matilde Stuart - Essa mulher teve um caso que talvez a Psicológia poderia arriscar como um princípio de Esquizofrenia e Transtorno Bipolar, procurei nos arquivos digitalizados e o caso dela é semelhante com o de Connor Bouchard. 
Jack me olhava inexpressivo. 
- Hm... -  soltou depois de alguns minutos tensos - Então Connor é esquizofrenico?!
- Não, mas a esquizofrenia é o que mais se aproxima dele. Acho que Connor é um caso não solucionável... Pela ciência.
- Combinamos que você não voltaria com esse assunto. 
- Olha, quem foi Matilde Stuart?
- Uma mulher louca, que se matou porque segundo ela, a morte era o melhor lugar para se estar. 
- Segundo o prontuário digitalizado, Jack! O contéudo não é o mesmo que está no arquivo restrito...
- Ele foi resumido, mas isso não importa, é um caso encerrado, Matilde era esquizofrenica. Achava que a confusão do paraíso pós a vida era o lugar para se estar. Então deixe ela lá.
- Ela se automedicava para morrer. Já esteve morta por três vezes, tentou o suícidio, é a única pessoa no mundo que conseguia sentir a morte, Jack. Entende o que eu falo? Ela morreu por 6 minutos e voltou dizendo como era...
- ...Ela estava blefando! Assim como Connor deve ter tido um trauma de vida e agora acha que os sonhos dele são a realidade verdadeira. Deixe-o sonhar.
- Sonhar não faz mal a ninguém, mas quando a pessoa confunde, como Matilde confundiu a vida com a morte, isso se torna perigoso.
- Dê a ele o medicamento e faça consultas uma vez por semana. Connor Bouchard é um caso resolvido.
- Você é um péssimo profissional! - bati o punho na mesa.
- Harris! - gritou.
- Eu quero acesso aos arquivos restritos da ala psiquiatra. 
- Se são restritos... - tentou impedir. 
- Bom, eu pedi acesso. Só me dê o acesso, Jack. - insisti.
- Você quer o dossiê completo? - sentou-se na poltrona cansado.
- Da Matilde completo e se puder, quero da Clínica de Boston. 
- O quê?! Não havia nada com a Clínica! - berrou.
- Então porque foi fechada, Jack?! 
- Eu não sei, isso foi à mais de 100 anos, Cloe. Mas que droga! 
- Me dê o acesso, Jack. Somente isso. 

Desci para o arquivo morto da Cliníca Densey, já era por volta das sete da noite. Eu tinha que fazer aquilo, Connor teria que me desculpar pelo furo. Acendi as luzes eletrônicas e procurei o dossiê completo de Matilde Stuart. Estava na ala M, quando finalmente encontrei seus arquivos. Coloquei no carrinho junto com as partes restritas de todos os prontuários que eu havia jogado na mesa de Jack. Estava voltando para a ala C, quando passei de relanche pelo arquivo Caroline Bouchard, ano 1913
Puxei o arquivo e folhei as páginas. Uma mulher com Transtorno Pós Parto. Caroline tinha 19 anos quando deu a luz a seu filho Donald Bouchard, que tinha sido entregue ao serviço social da cidade. Caroline havia sido estrupada e encontrada perto de uma antiga casa abandonada. Segundo os registros, Caroline tentou se matar e acabou sendo levada para a Clínica Densey mesmo grávida. Ela faleceu aos 24 anos, estava dormindo quando veio ao óbito. Há centenas de Bouchard pelo mundo, mas algo parecia familiar demais naquele dossiê. Coloquei o arquivo de Caroline no carrinho, peguei o dossiê da Clinica Densey e sai do arquivo morto às pressas. Eu tinha que vê Connor. 
Enquanto me arrumava eu lia os registros de Caroline. Foi o único dossiê que decidi levar para casa. Seu filho foi adotado aos 3 anos de idade por uma família norte-americana. Não há mais registros sobre o paradeiro do garoto. Terminei de me vestir por volta das oito e quarenta da noite, já estava atrasada. Até chegar Avenida Kennedy Bridge ia demorar meia hora. Arrumei minha bolsa e coloquei a capa do prontuário dentro de uma pasta para mostrar ao Connor, se caso minhas suspeitas fossem certeiras. Cheguei no estacionamento e vi Connor saindo do restaurante falando sozinho, estava bravo, claro. Sai do carro calmamente e ele cruzou os braços quando me viu, dando risada. Não podia reclamar de nada, deu sorte que eu ainda apareci mesmo com dez minutos de atraso. 

- Eu sabia! - disse com ar triunfante.
- Eu não ia vim. - falei fingindo meiguice. 
- Ah é?! E o que te fez vim? - falou maliciosamente.
- Com certeza não foi seu jeito repugnante.
- Você é chata, Harris! - fechou a cara.
- E você é um bêbado tarado. - me irritei.
- Ainda não bebi. - bufou.
- Vim para falarmos do seu problema.
Falei entrando no restaurante deixando Connor frustrado logo atrás de mim. Ele me apontou a mesa que estava e nos sentamos.
- Não te convidei pra falar do meu problema sem solução.
-Ok, mas eu vim por causa disso. Só me responda uma coisa.
- Respondo se você tomar um vinho comigo. 
Olhei pra cara dele com vontande de dá um soco.
- Você não bebe nem vinho? - perguntou incrédulo.
- Não com meus pacientes, Connor. - olhei ao redor.
- Não sou seu paciente, Harris... - falou baixo - Ande, pergunte! 
- Conhece algum Donald Bouchard? - mordi o lábio ansiosa.
- Quê?! - fez cara estranha - Donald?! Bouchard? 
- Ah, deixa... - falei frustrada.
- Aonde você tirou isso, Cloe?! - ainda estava fazendo a careta estranha.
- Ahh... Nada, achei que... Deixa quieto. - levei as mãos a cabeça, exausta.
- Eu tinha um avô, mas o nome dele era Richard Donald Bouchard. Meu pai que se chamava Donald Bouchard. 
Olhei para Connor incrédula, agora era minha vez de triunfar. 
- Bingo! - falei sorrindo. 


domingo, 4 de setembro de 2016

Capítulo 8: Lições.


 Olhei para os lados como se esperasse passar alguma coisa, mas eu não via nada, ouvir a voz de Cloe naquele lugar, fora a melhor sensação daquela semana. Demos as mãos. Pensei em filmes de ficção e se acontecesse "alguma" coisa, Cloe poderia mudar de forma instantânea. Senti a mão de Cloe fria e sua voz indicando ligeiramente um tom submisso, acho que ela percebeu, pois logo pigarreou e começou a falar.
 - Bem, vamos, vou mostrá-lo. - ela falou confiante, mas pude sentir algum vacilo, ou talvez não.
 Todo aquele vão escuro se foi, era a mente de Cloe, no caso eu era o coelhinho assustado e ela era minha predadora.
 - Existem diversas forma de diversificação de uma memória, seja ela boa ou ruim, como por exemplo. - ela parou de caminhar.
 Subitamente o cenário mudou de forma instantânea. Eu espera por aquilo, mas mesmo assim me assustou. Entramos em uma porta, lembrava ser uma clínica, mas não a Clínica Densey, alguma e Moscou ou em outro lugar da Rússia. Passamos pela porta e estávamos em uma sala normal, como de qualquer outra clínica, mas... não era uma clínica era como uma delegacia de Polícia. Cloe pareceu saber o quê eu ia perguntar, pois concordou com a cabeça.
 - Esse foi meu primeiro trabalho depois que eu me formei na faculdade, tinha acabado de pegar meu credencial e arrumei o emprego no mesmo dia. - ela comentou. - Meu trabalho era recolher um depoimento que o  incriminasse.
 - E qual foi o crime dele?
 - Ele matou dois agentes de campo, ele era sofria de esquizofrenia.
 Assoviei de forma prolongada.
 - Primeiro caso, um esquizofrênico.
 - É fácil confundir qualquer louco com esquizofrênico, Connor.
 - Tá, tá. Mas o quê isso vai me ajudar mesmo?
 Ela limpou a garganta antes de começar a falar novamente, agora num tom mais formal.
 - Como estava dizendo, meu primeiro trabalho e ato como psicóloga. Eu estava nervosa, e parecia que tudo que eu aprendi em quatro anos de estudo e rotina extensa tivessem evaporado da minha cabeça assim que eu vi aquele homem.
 Cloe não mentia, a cena através do vidro era essa mesmo.

 Um homem com braços e pernas algemadas, de cabeça baixa. Sentada, do outro lado da mesa estava Cloe, talvez uns 5 ou 6 anos mais nova nada, não mais que isso. Não era a Cloe que estava do meu lado. A Cloe atrás do vidro estava meio insegura, apesar de não demonstrar, mas eu sabia, tinha visto minha psicóloga o bastante para reconhecer suas atitudes.O corpo fala.
 A cena seguiu-se com a narrativa dela. Vinhemos andando pelo mesmo caminho que tínhamos entrado. Entretanto seguimos caminhos diferentes. Ela a todo momento, me questionava sob meu passado e cada resposta, parecia gerar mais uma dúvida. Era como um debate político. De um lado, eu defendendo a esquerda e ela a direita de um país afundado em corrupção e a sociedade insiste em ser burra e acreditar em políticos. Mas Cloe sabia mover as peças, era quase frustante.
 - Você falou sobre diversificação de memórias, quer dizer que eu posso mudar o quê penso? - perguntei.
- Ora. - ela deu de ombros, como se fosse óbvio. - Se você não controla oque pensa, quem controla? -sorriu.
- Se fosse tão fácil assim, eu não iria gastar dinheiro com uma psicóloga.
- Connor, só estou tentando ajudar.
- Certo, lição número um, diversificação, agora. Podemos sair daqui? - disse, já incomodado, mas só agora percebi que Cloe poderia ter acesso ao que eu pensava.
 - Um minuto.
Ela tirou algo que parecia um controle de um ar-condicionado do seu jaleco branco, era um dispositivo com um só botão, e ela apertou. De um segundo pro outro, tudo ficou turvo, Cloe sumiu e eu simplesmente cai, sem consciência.

Acordei na mesma sala onde estava com Cloe a uma hora atrás. Vi ela de soslaio, tirando os aparelhos de mim, e pediu para que eu me sentasse na cadeira e fez uma dúzia de checagens básicas para ver se eu não fiquei louco.
- Okey, você está bem... assine isso. - Harris me entregou uma prancheta, sem pensar duas vezes assinei. - Você não ficou louco, ou teve alguma sequela.
Sorrir, olhando para os lados. Ela me olhou desconfiada, me levantei e caminhei pra fora da sala.
- Connor? Aonde vai?
- Que horas termina seu plantão ou seja lá o nome.
- As seis. - ela engoliu seco, pensando no que tinha dito.
- As nove eu te encontro na praça da avenina Kennedy Bridge, esteja lá, Harris.
- Connor, eu não vou sair com você! - ela sorriu debochada.
- Qual foi a última vez que você transou, Cloe? - ela não respondeu, mas sua expressão dizia tudo. - Mora sozinha, cheia de gatos? Ora vamos. Só um jantar.
 Cloe Harris não era uma mulher de ficar calada, era de ter a última resposta, eu via nela a cobinação perfeita de morango e champanhe.
- As nove, doutora. - sai, triunfante. Mas temendo a ausência no fim.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Capitulo 7: Submetidos

Nossas vidas são definidas por momentos. Principlamente aqueles que nos pegam de surpresa. Não se pode muito esperar dos meus pacientes, mesmo aqueles com suas peculariadades. Mas é claro que algo iria acontecer, sempre acontece quando se tem um caso como de Connor em mãos. Eu estava aconselhando uma jovem que seria mãe nos próximos meses e tentando fazer a sua própria mãe a apoiar a filha nesse momento. Era um daqueles casos que você mais age como um agente passivo do que um agente ativo. Quando a mãe da jovem estava desabafando, ouvi gritos e múrmuros vindos do corredor, mas isso já era algo natural, porém a cada palavra que ela dizia, mas próximo o caos ficava. Então veio a explosão.
De repente, Connor estava desesperado dentro do meu escritório e quase toda a segurança vinha ás pressas tentando segurá-lo. Connor estava atordoado, algo deve ter lhe acontecido, eu pensava. Me aproximei dele quando vi sua reação agressiva, dando um soco no segurança que tentava acalmá-lo.

- Soltem! - falei em um tom baixo, mas autoritário para que entendessem que aquela era minha sala, minhas regras.
- Doutora Harris, eu... Eu vi ele passando, e... e... Eu... - tentava pronunciar cada palavra tentando vencer o desespero.
- Saiam todos, por favor. Levem o Connor para o Centro Operacional.
- Ah... Doutora? - o segurança ergueu a mão como se fosse um aluno no jardim de infância ansioso para responder algo.
- Sim? - falei passando alguns medicamentos para a mãe da jovem e uma nova guia de encaminhamento para a nova mamãe.
- O Centro seria apropriado se Connor estivesse dopado... - tentava se explicar.
- Eu sei. - falei.
- Então... - tentava o segurança.
- Por favor, apliquem nele antes que ele lhe dê outro soco.
Connor estava em transe, quando percebeu algo segurá-lo, tentou se defender, porém a seringa já estava em sua têmpora e seu corpo mole, deslizando pelos braços do segurança.

- Me tirem daqui!! - gritava enfurecido.
- Que bom que acordou, rapunzel. - falei sentando-se na cadeira ao lado da mesa no Globo.
- Vocês são loucos! Que lugar é esse? - gritava.

A reação da injenção deve ter confundido os neurônios de Connor mais do que deveria em um paciente com um simples problema. O Centro Operacional era uma parte pouco frenquentada, apenas casos muito extremos eram encaminhados para cá. Jack preparou tudo com a mais alta tecnologia do país. Era uma sala média muito bem iluminada, havia em cada ponto luzes azuis que davam um impressão interessante, mas não causava nenhum efeito. Era apenas um charme. Paredes brancas azuladas e uma mesa cercada de monitores ao centro. Chamavámos o centro de Globo, por ser um círculo onde tudo acontecia. Ao canto da sala havia uma porta que dava acesso à uma cabine. Ficavámos ali quando os pacientes passavam pelo processo de Vaporização da Mente. A cabine era cheia de monitores e um pequeno teclado que controlava tudo, até mesmo às células do corpo do paciente. Não faria nada que Connor não permitisse, a viagem da Vaporização da Mente era algo muito difícíl e causava efeitos fortes na mente por alguns dias. Pessoas temperamentais nunca souberam lidar bem.

- Me solte, Harris!! - ainda gritava.
- Veja bem. Você tem duas opções: gritar e ficar aí por um bom tempo; ou se acalmar e aguardar minha resposta sobre se solto ou não você.
- Merda! - cuspia de raiva.
- Irei soltá-lo, Connor. Apenas me prometa que não fugirá, nem me agredirá.
- Não sou capaz disso, Cloe. - respondeu com firmeza.
- Ok... - falei encarando seus olhos escuros.
Soltei Connor com rapidez e aguardei algum movimento brusco, mas graças a Deus nada aconteceu. Sentei novamente na cadeira esperando pelas perguntas.
- Que lugar é esse? - iniciou.
- Chamamos de Centro Operacional, e aqui bem ao meio, chama-se Globo. - me animei, Connor achou graça.
- Por que tem tanta luz?
- É um dos charmes deste lugar.
- Porque me trouxeram aqui? Aposto que não é muito frequentado. - revirou os olhos ao olhar pela imensa camera posicionada ao canto.
- Realmente... Mas pessoas como você são bem vindas aqui. - olhei para a camera também.
- O que quer fazer comigo? - perguntou respirando pesado.
- Acho que é minha vez de fazer as perguntas, certo?! - falei calmamente.
Ele me olhou como se tivesse me analisando demais, até eu perceber que voltava a encarar a tatuagem. Vi um sorriso maliciso no canto da boca e depois ele concordou com a cabeça.
- O que lhe aconteceu?
- Vi algo diferente. Figuras negras, em formas diferentes por todo canto, as mesmas dos meus sonhos, mas eu estava nitidamente acordado.
- Tomou algum rémedio na noite passada? - perguntei rapidamente.
- Não, só bebi muito, mas o alcóol não é capaz disso.
- Sim. Continue.
- Foi quando me dei conta do seu nome, havia brotado na minha mente e decidi vim atrás de você. Foi então que foi ficando mais forte, como se eu tivesse sido engolido pela massa espessa negra e cheia de ruídos.
- Hmm... - falei balançando a cabeça.
- Não tenho nenhum problema mental, doutora.
- Eu sei, Connor. Já revi seus exames de ponta a ponta. - dei de ombros, ligando a máquina calmamente.
- Certo, então, o que eu tenho? - me observava atordoado.
- Alguma coisa paranormal, não sei ao certo. - falei.
- Não creio nisso. Não me mande me benzer, Harris.
- Eu sei, Connor. Até porque a benzadeira não ia ajudar em nada. Eu aconselho a você fazer este teste comigo, você irá entrar na minha mente e irá vê como controlo e como não deixo ser controlada, depois faremos em você e você me dirá da sua expirência.
- E como isso pode me ajudar?! - gritava atônico.
- Você aprendendo a se controlar, já é um bom começo. Depois farei o necessário para que você entenda que a realidade onde estamos é o que deve ser a sua realidade.
Connor bufou.
- Ok.
- Os efeitos são um pouco difíceis de lidar. - falei conectando os fios em sua mente e prendendo seus pés.
- Tipo?
- Não vai conseguir dormir por uns três dias, vai pegar intolerância ao leite e seus derivados, ficará com uma vontade louca de adrenalina.
- Hm... Vou procurar algumas garotas então. - falou rindo.
Olhei com nojo para ele e ele me olhou feio.
- Você não vive?! - perguntou como uma criança boba.
- Sim, mais do que você.
- Uau. - falou animado - Então se não vou dormir, que tal ficar comigo...
- Não! - falei.
- Um passeio, vamos Harris, sou seu paciente e preciso de ajuda.
- Estou lhe ajudando mais do que deveria, Connor. Cancelei com 04 pacientes só pra fazer esse experimento.
- Então sou seu paciente favorito.
- Irei colocar uma outra mesa ao lado e conectarei os fios que estão em você na minha cabeça. Eu injeto o líquido em você e você em mim, seja rápido, o efeito é imediato.
- Ok.
Injetei o líquido azul em Connor e passei a outra seringa para ele fazer o mesmo em mim. Connor foi mais delicado do que deveria. Segurou meu cabelo e injetou bem devagar.
- Seja rápido, não quero que durma em cima de mim.
- Até que seria uma ótima posição, Harris. - disse saindo de cima de mim.
- Vamos lá, dentro de 60 segundos estaremos na minha mente, no meu paraíso do sonho e você verá como posso controlar. Serei sua professora.
- Ok, irei tirar nota dez e como recompensa ganho uma noite inteira com a Cloe.
- Tá - fechei os ohos desejando que o tempo passe rápido.
- Harris? - murmurou.
- Fala.
- Lamento por ontem, mas...
- Sem problemas.
- Hm... - ele se calou, como se tivesse com receio de dizer algo. Queria perguntar o porquê do receio, mas fomos submessos a uma nuvem negra e barulhenta. Estavámos no meu sonho, certo?
- Isso está familiar demais. Estamos na sua mente?
- Sim... - olhei ao redor e me senti atordoada por aqueles vultos negros e ruídos que não diminuiram.
- Você está bem? - perguntou se aproximando de mim. Pude sentir seu toque naquela escuridão.
- Não... - falei me sentindo pequena demais e vulnerável para Connor Bouchard.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Capítulo 6 - Casualidade da Loucura


 Eu sei, que ela tinha tentado, mas... ela é uma profissional. Não pode simplesmente desistir de um caso. Eu conhecia pouco a doutora Cloe, ela é uma pessoa fácil de conviver, desde que você seja alguém afetivo. E nos últimos anos eu estava me esquivando de uma morte mental.
 Queria ligar, mas isso ia passar por cima do meu orgulho, mas eu ainda tinha uma consulta com ela no dia seguinte... não quero parecer desesperado. (Mas estou.)
 Resolvi sair um pouco, a pé. Andei em volta do quarteirão, cumprimentei alguns vizinhos. No caminho de volta comprei algumas bebidas. Em casa, preparei um jantar bem vagabundo com pão e uns frangos fritos e comi assistindo um jogo de hoquei pela televisão.
 Decidir não ir pra clínica naquele dia, eu e Cloe sabíamos que eu não daria esse gostinho para ela, fui para meu Studio de tatuagens.
 - Connor, onde estava rapaz?! Fiquei preocupado. - comentou um dos tatuadores.
 - Oh, que fofo. Você preocupado, Theodore?
 - A Megan ficou. - rimos juntos e olhamos com desdém para ruiva atrás do balcão.
 - Vão a merda, vocês dois.
 - Também te amamos, Megan. - comentei. Já indo para meu espaço.

 Naquele dia, foi um dos dias mais normais da minha vida, atendi uns seis clientes naquele dia, a quinta foi uma ex-namorada que tentou usar as "aptidões corporais" para fazer uma tatuagem. Passei o dia pensando em como seria a próxima vez que eu fosse aquele consultório. Poderia simplesmente deixar de ir, e eles iriam cancelar meu cadastro de consultas, poderia ir e não ter mais meu cadastros ou  mais óbvia... Cloe me ligar, me ligar?! Por quê ela me ligaria, quer dizer, não! Mas o quê diabos eu estou pensando, me peguei imaginando um possível futuro romântico com Cloe Harris? Cloe Harris? Talvez eu gostasse de sofrer, quem sabe esse é meu diagnóstico?
 O tempo passou rápido naquele dia. Theodore, Megan e eu decidimos fechar cedo para ir a um barzinho-rock, tomar alguma coisa e curtir um bom e velho rock dos anos oitenta, fomos na picape de Theodore. Theodore é gay parece aqueles antigos vikings, grande e forte. Mas com certeza o que chama mais atenção e sua barba espessa e as tatuagens ligadas de seus ombros até as mãos. Megan era uma mulher relativamente magra, mais ou menos um metro e sessenta e oito, ruiva e usava piercings no nariz, lábio e sombrancelha. Ela tinha um aspecto sexy de gótica, dormi com ela algumas vezes, nada que nos comprometa.
 O nome do bar que chegamos era "Fliperama do Boo", não tinha qualquer máquina de jogos e etc, mas bastante daquelas grandes jukebox de músicas clássicas e strippers. Conhecia três ou quatro, já as tinha levado para casa. Não é ser machista, mas... quando pega a camada rosada da pele que ferve, nenhum ser humano resiste, nem os mais santos.
 Sentei-me com os dois no balcão e formos atendidos pela garçonete que já nos conhecia. E já chegou trazendo os copos, bebidas e o cinzeiro.
 - Pessoal, como vão. - ela nos serviu, afetuosa. - Ainda anda louco, Connor?
Meus amigos reprimiram risos e eu também.
 - Estou me cuidado Lucy, talvez você saia comigo um dia desses.
 - Vá sonhando, amorzinho.
  Lucy se afastou, Megan acendeu seu cigarro e Theodore procura algum paquera.
 - Então, aonde está indo? - perguntou Megan, soltando a primeira remessa de fumaça intensa.
 - Clinica Densey, aquela da sétima avenida. - tomei minha primeira dose.
- Porra? Aquele é clinica pra rico, Connor.
 - É pra loucos, rico ou pobre, todos saem perdendo.

 Theodore foi dançar com alguém que nem eu e Megan identificamos. Ficamos sentados. Fumamos e bebemos por mais alguma hora quando o desejo falou mais alto. Me lembro de vislumbres como Megan totalmente nua pulando em cima de mim e mordendo meu pescoço, minhas mãos explorando cada centímetro do seu corpo branco e maltratado pelo frio constante e inconsolável do país. Megan é fria, por coincidência eu adorava o inverno. Depois de todo aquele êxtase e orgasmos insanos, acordamos em minha casa, os dois ferrados e com dor de cabeça. Não falamos mais do que o necessário. Nos arrumamos, preparei um café e ela foi pra casa, demorei alguns poucos segundos pra ter certeza que não tinha sentido nada "só casual". Tudo seguiu normal pelos próximos dez minutos quando uma sensação excruciante tomou conta da minha cabeça e tive que me apoiar na parede. Eu vi, eu estava vendo! Figurar negras brotavam de baixo para cima de lado para o outro, as mesmas formas que eu via... no sonho?! Como eu posso me lembrar disso? A primeira coisa que eu consegui pensar foi no nome de Cloe. Apenas me vesti, peguei as chaves da minha moto e segui para clinica.
 Era por volta das dez e meia da manhã, ela já deveria está na clinica, desviei ruas que sabia que haviam policiais, pois tinha saído sem capacete. Quando brequei em frente a clinica, o pneu traseiro fez mais barulho do que devia e talvez eu tivesse assustado os pacientes na sala de espera que se levantaram as pressas para ver que barulho era esse. Continuei sendo atormentado pelas imagens, ruídos e barulhos, continuei andando assim que entrei na clinica e ignorei o chamado da recepcionista, eu sabia o meu destino.
 - Doutora! - abri a porta da sala de Cloe num banque forte. Ela estava sentada e em frente a sua mesa estava uma adolescente e sua mãe, talvez a jovem fosse uma "recém-mãe" e estava procurando como suportar ser mãe com menos de dezoito anos, talvez. - Está acontecendo.
 - Senhor! Ah... d-doutra Harris, eu avisei que ele não podia entrar. - disse quase choramigando a recepcionista.
  Um segurança veio logo atrás e me segurou pelos braços, eu não estava lúcido e minha cabeça explodia de dor, lembrei-me apenas de vê-lo atordoado para trás com um soco que eu havia lhe dado e as mulheres recuarem, apenas Cloe que se levantou e se pós na minha frente como se me desafiasse a avança, mas ao mesmo templo implorando por calma. A última vez que vi tanta atitude assim em uma mulher, foi na minha ex-esposa.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Capítulo 5: Deslize

Acordei, desta vez com os telefonemas exaustivos de Jack. E eu nem estava atrasada. 
- Que foi? - falei.
- Preciso de ajuda com a paciente Kim. Aquela que passou por você antes de você sair de férias. O marido disse que ela anda se mutilando e quando perguntamos a ela o porquê, ela diz que não sabe. 
- Já tentou a hipnose? - levantei da cama deixando o celular sob a cômoda.
- Hm... 
Sempre questionei o diploma de Jack Klyan. Uma por não ter a noção mínima de lidar com pacientes de grau 1. Kim era uma boa mulher com problema de bipolaridade. Seu lado bom era muito divertido, Kim tem o dom de deixar as pessoas tão confortáveis em sua presença que tenho a convicção que o seu lado mal iria adorá-la. Enquanto que seu lado mal faz o caos em sua vida a ponto de deixá-la... Sonâmbula. Às vezes defino seu estado transitório como um apagão provisório ou pane no Sistema Neurológico. A bipolaridade pode ter seus diferentes graus e fazer o estrago de diversas maneiras muito criativas e dez vezes mais deprimentes. 
- Hipnose, Jack! - falei outra vez. 
- Nunca fiz isso, Cloe. 
- Todos os estudantes de Psicologia no terceiro ano de estudo, e ao longo do quarto e quinto ano, aprendem tanto a teoria como a prática. Impossível você não saber! - dei risada para mim mesmo, impedindo Jack de ouvir.
- Preciso de você. - insistiu. 
- Vai me pagar hora extra? - falei indo até o celular, pronta para desligar.
- Cloe, estou falando sério! - resmungou.
- É, Jack... - olhei para a janela fixando minhas atenções para o lado de fora - Eu também! - desliguei o celular indo até a porta. Nevava outra vez, as ruas estavam vazias. Minhas atenções foi até um garoto que estava parado em frente a minha casa com um jornal em mãos. Sempre o via parado, entretido por algo.
- Olá... - cruzei os braços tentando me proteger do frio.
- Seu jornal. - ergueu para mim. 
- Obrigada... Sempre o vejo por aqui. Como é seu nome? - perguntei.
Ele me olhou tão intensamente que achei aquele olhar familiar demais. 
- Como você se chama? - sorri desta vez.
- Seu nome... Cloe, né?! 
Fiquei atordoada com a afirmação, pelo fato de estar tão convicto daquilo. 
- Como?! - meu celular tocava outra vez.
- Preciso ir. Tenha uma excelente manhã, senhora Harris. 
E então o garoto saiu. 
Demorei para atender tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Olhei finalmente para o visor. 
- Connor? - perguntei sem ter certeza se era ele mesmo.
- Doutora? - perguntou ainda duvidando se era eu mesma a dona do número que havia ligado na noite passada. 
- Sim? - revirei os olhos e entrei novamente, fugindo do frio agoniante. 

Me arrumei depressa, agoniada com o início daquela manhã. Estava irritada e não queria fazer nenhuma espécie de meditação. Às vezes a raiva faz bem, nos faz pensar e principalmente, sentir a nossa frustração. Connor havia pedido que eu fosse vê-lo naquela manhã sendo que ele teria uma consulta comigo no dia seguinte. Mais um sonho real e ele não podia esperar por mais um dia. E ainda teve a audácia de dizer que eu tinha uma tatuagem sendo que nem era uma tatuagem de verdade. Bom, a principio, era uma, mas servia como uma proteção. Jack não sabia lidar com uma bipolaridade no grau mínimo e um estranho que sabia meu endereço e meu nome me perseguia toda manhã. Segui as instruções do meu paciente e cheguei ao prédio em que ele morava duas horas depois. Passei na Clínica para medicar Kim e prometi que iria ser mais útil no dia seguinte. O prédio de Connor estava acabado, mas era uma casa apropriada. Passei pelo estúdio sem nem sequer olhá-lo.
- Se eu soubesse disso teria ligado duas horas antes. - resmungou.
- Sou sua psicóloga, não seu guarda-costas. Estou aqui, isso que importa. - falei brava demais.
- Eita. - entrei sem ele precisar dizer.
Regulei todo o ambiente com meu faro aguçado. Uma casa comum, com uma televisão ligada no canal de esportes, pizza velha exposta na mesa de centro e algumas cervejas vazias. Caminhei mais um pouco até encontrar seu quarto, ou o que deveria ser seu quarto. 
- Não é meu guarda-costas, mas parece um cão farejador. - ele vinha atrás de mim. 
- Faz parte do meu trabalho. Posso? - perguntei por perguntar, antes dele responder eu já estava entrando em seu quarto.
- Epa... 
Dei graças a Deus que não tivesse nenhuma mulher pelada ou qualquer indício de alguma presença feminina depravada naquele lugar. 
- Interessante. - falei ao olhar uma coleção de livros. Todos com o título Sonhos e Física estampados em suas capas. 
Ele me seguia. 
- Sua doença tornou-se seu vício. 
- Eu sei. - falou rapidamente. 
- Como foi seu sonho, Connor? 
Ele me olhou quase que tentando decifrar as intenções da minha pergunta. 
- Um deserto, como sempre. 
- Essa é a paisagem principal, antes da mudança? 
- Como assim? - ele ficou surpreso.
- Uma realidade é interessante por não ser repetitiva. Ela altera o local, as pessoas, o clima e até mesmo as emoções. Se o seu sonho tornou-se a sua realidade, então ele passa pelas mesmas alterações. Um deserto é sempre o ponto inicial e você sabe que é o sonho porque é de lá que você começa a sua nova jornada diária. 
Ele fechou os braços balançando a cabeça.
- Pode ser. O frio e o calor era algo novo na paisagem, pode ser, Doutora. - disse me olhando.
- Continue, por favor. - me sentei na cadeira próxima a sua cama. 
- Depois do ponto inicial, eu me vi caindo em um poço escuro. Deveria gritar, pedir por socorro, mas de alguma forma aquilo me pareceu tão... 
- Real? 
- Não! - ignorou minha tese - Como um abraço de uma mãe depois de um longo dia longe de seu filho único. Como um beijo de despedida de um casal apaixonado. 
- Algo familiar? - juntei as mãos. 
- Não, como se fosse algo que eu não tivesse.
- Será que você compensa em seus sonhos aquilo que não teve em sua vida real?
- Minha vida real é o meu sonho, Doutora.
- Então o que é isso aqui, Connor?
Esperei que ele respondesse, mas pude ter certeza de algo. Connor nunca havia feito essa pergunta antes. Ele tinha convicção da realidade que seus sonhos tinha para ele, mas o que deveria ser sua realidade, para Connor era o desconhecido. Ele levou as mãos ao rosto ainda me encarando. 
- O que é isso aqui, Cloe? Digo... Para você. - perguntou com cuidado.
- É a vida. A verdade. O fato. A realidade. Onde temos o poder de mudar o rumo de tudo.
- Isso é o que eu tenho em meus sonhos. Entendeu?
- Claro! E é o que você tem aqui, mas ainda não percebeu.
- Cloe, eu tenho uma vida comum, posso beber hoje ou beber nunca mais. Posso me mudar para o México ou para a parte mais rica de Moscou. Sei lá. Em meus sonhos, é como se eles mesmo tivessem vida e me conduzissem, mas eu tenho a autoridade de dar a última palavra.
- Eu me sinto assim em meus sonhos, em poucos claro. - falei rapidamente. Connor ficou perplexo.
- Sério?! - perguntou curioso.
- De fato é um sonho, mas meu consciente, a parte principal do meu Sistema Nervoso acorda aos poucos fazendo com o que meus sentidos voltem. Eu estou no sonho sendo conduzida, mas eu passo a decidir. Logo, deixo de estar em um sonho e passo a estar na minha própria imaginação. Eu tenho a escolha de sonhar literalmente ou de imaginar o desfecho, entendeu?
- Tente não introduzir a ciência nisso, Cloe. - ele estava furioso.
- Não é a ciência, Connor. Eu nunca a uso em minhas análises. - dei risada com o absurdo.
- Como?! 
- Sou psicóloga. Não é pela ciência que consigo ser bem sucedida em minhas análises. É estando no mesmo barco que meus pacientes. Preciso sentir a sua dor, preciso estar junto com você, preciso vê o que você vê e juntos vamos conseguir. A ciência apenas diz em que quadro o seu problema se encaixa, somente. - falei deixando-o pensar sobre isso.
- Jack sabe que a Doutora...
- Connor! - repreendi.
- Tudo bem, então você vai vê meus sonhos? - ele parecia dez vezes mais confuso.
- Já ouviu falar da hipnose?
- Já. - deu de ombros.
- Que tal? - cruzei as pernas. 
- É um jeito de me fazer dizer sim? - ele deu risada.
- Por mim. - também sorri. Era um sim. 
Liguei para a recepcionista avisando que não iria à Clínica naquele dia por questões profissionais. Jack me ligou centenas de vezes, mas tratei de deixar o celular no vibra.
Pedi que Connor deitasse na cama e tive que ouvir dezenas de comentários sobre a cruzada de pernas e a cama que ele estava deitando.
- Cale a boca, Connor. - falei brava com aquela situação.
- Tudo bem. - e então calou-se. 
- Agora vou conectar esses fios em sua mente e estarei vendo todas as imagens que passa em sua mente. 
- Eita... - gargalhou.
- O que? 
- Espere mais uns dois minutos, por favor. - pediu.
- Só vou vê a parte direita de seu cerébro, onde é feito seus sonhos, Connor. - esclareci.
- Ufa. - olhei para ele tentando oprimir minha curiosidade.
- Daqui a dez minutos estará pronto. - falei por fim.
- Que tipo de tatuagem é essa que você tem? - perguntou.
- Que?! - quase deixei o notebook escapar da mesa. 
- Hmm... - ele deu risada.
- Connor! 
- Cloe, dizer meu nome furiosamente sempre não vai ter muito efeito.
Ignorei por alguns minutos, mas outra vez ele aparecia.
- Fiz uma pergunta. - disse mais sereno.
- Não é da sua conta. - falei calmamente.
- Então deveria esconder o decote um pouco mais. - insistiu.
- Eu estava de cachecol! 
- Deu pra vê mesmo assim. 
A tatuagem estava acima do meu seio, bem no peito. Não era uma coisa chamativa, visto que era pintada de bege, mas seu contorno era preto, o que parecia algo como uma tatuagem se alguém estivesse prestando muita atenção ali.
- Não é uma tatuagem muito bonita. - ele continuava.
- Eu sei. 
- Tem tantas outras que podem realçar essa região.
- É um escudo. - falei por fim.
- Tem alguma magia? - ele riu. O download estava quase no fim. 
- Não, uma proteção. - falei encarando o carregamento.
- Proteção contra gente doida? 
Peguei a seringa e enfiei no pescoço de Connor nenhum pouco delicada. 
- Você dormirá e vai estar na sua realidade. Verei tudo. - deixei claro.
- Cloe? - seus batimentos estavam diminuindo.
- Sim? 
- Proteção contra o quê? 
- Contra vocês. - falei encarando para o monitor. Connor balbuciou algo indecifravél, mas já estava apagado completamente. Consegui vê o deserto, o sol e a vasta areia. Depois Connor estava em um subúrbio vazio, com um carro preto parado no meio da avenida. Vazio. Ele entrou e então estava em um banco de uma praça ao lado de uma senhora que dormia. Depois ergueu um jornal e a manchete era uma foto do meu escritório. Quando ele virou para o lado, estava eu sentada com a minha tatuagem reluzindo. Depois acordou. 
- Como pode viciar em algo sem nexo? - perguntei incrédula demais.
- Não queria que visse o sentido. - tirou os fios devagar.
- O quê?! - perguntei brava.
- Eu posso conduzir o sonho. Posso te mostrar de tudo um pouco, o que eu bem quiser.
- Não teve graça! Não é toda hora que posso te conduzir para a hipnose.
- Isso não vai funcionar, Cloe! - gritou - Você quer vê o que eu posso te mostrar, ok. Mas onde que está a cura nisso?
- Cura? Eu nunca falei em cura, Connor! 
Ele estava furioso e eu também.
- Foi um erro. Saia daqui! - disse ríspido. Encarei ele e sai, sem precisar ouvir outra vez aquilo de novo.

Capítulo 4 - O Sonho

  Era três e meia da manhã quando voltei para casa, por mais que estivesse sob efeitos fortes de toda e qualquer substância alcoólica, não me saia da cabeça diversas formas e motivos, alguns até impossíveis e bizarros. Ela tinha me ligado? Por quê? Isso não saia da minha cabeça. Eu não podia julgar Harris, quer dizer... ela trabalha como psicóloga e deve ser algo estressante lhe dar com pessoas "desequilibradas" emocionalmente ou mentalmente, e iam apenas para ouvir os mesmos malditos sermões.
  Era por volta das nove e meia quando a doutora tinha me ligado e mais uma vez sentia martelar meus pensamentos quando tentava entender o porque daquilo. A explicação mais "lógica"que eu tinha naquele momento é que ela queria se divertir, afinal. Fora da clínica ela também tem uma vida social... ou não. Me adiantei com um banho gelado, não comi nada e fui deitar deixando-me ser assombrado mais uma vez por aquele sonho longínquo, eu queria tocá-lo mas estava longe demais. Não tinha uma forma exata mas eu sabia muito bem pelo que ser atraído, tudo.
  Havia sempre um deserto extenso e árido, seguia de norte a sul a repulsividade do lugar, seguia para os dois cantos, desolada e silenciosa, exceto pelo uivo solitário do vento. No meio do deserto a natureza se mostrava majestosa e por partes bem fora do comum, pois no meio do deserto se abrigava montanhas com os topos cobertos de neve e vales escuros e tenebrosos, talvez eu seja um pouco sádico e atraído pelo perigo do desconhecido. Há, também, rios que formam corredeiras entre os canyon's; também, tinha, grandes e espaçosas planícies cobertas com areia e neve. Era tudo uma mistura com alto teor psicodélico, mas nada era colorido. Tinha cor e paisagem de como deveria ser, o estranho era apenas calor e frio se juntarem num lugar só ao mesmo tempo.
  Aconteceu, antes que me desse conta me via caindo em um poço escuro, eu deveria gritar ou acordar se forma súbita, mas era algo tão reconfortante... tão bom, mas?! Como eu conseguia está ciente de tudo aquilo, como eu sabia que deveria acordar em meio a um sonho, eu estou preso. É algo tão bom quanto o abraço de uma mãe ou da pessoa a amada, como beijar os lábios de alguém que você gosta e sabe que vai ficar bem com aquilo. Por mais que hesitasse eu não queri acordar, mas eu queria, queria. Fique, fique, FIQUE! A voz não existia, mas eu insistia em ficar.
  Quando finalmente me dei conta estava de olhos abertos e o pescoço travado em cima da cama, meu travesseiro estava bem molhado, eu tinha suado muito durante todo esse tempo. O relógio marcava seis e quarenta e sete da manhã, dois minutos de sonhos equivaleram boas horas aqui fora. Eu já sabia o que tinha que fazer e resgatei meu celular do chão, no pé da cama e liguei pro último número que havia me ligado. Houve de quatro a cinco chamadas antes de Cloe me atender. Sinceramente eu estava esperando não ser atendido ou ser atendido com uma resposta bem fria e ríspida mas tudo que veio foi.
- Connor? - parando finalmente para notar a voz de Cloe era suave e chamativa.
- Doutora?
- Sim? - ela respondeu do outro lado da linha. Não soava ríspida mas eu captava bem os graves de frieza em sua voz, talvez eu merecesse aquilo.
- A senhorita já está acordada?
- Eu geralmente acordo cedo, daqui a uma hora vou para clínica. Francamente Connor, me ligou para perguntar se estou acordada e não leve a mão, formalidade é apenas no trabalho.
  Ficamos por poucos segundos em silêncio, eu esperei que ela dissesse mais algo, mas nada aconteceu.
- Douto... digo, Cloe. Aconteceu denovo.
- O quê aconteceu? - ela parecia um pouco mais ansiosa.
- O sonho... tive ele hoje,
- E não pode esperar para a consulta de amanhã? Eu não faço consultas na casa dos meus pacientes.
- Eu vou ser bem direto. - endireitei a postura e suspirei, antes e falar - Está fazendo cinco graus, todas as manhãs de Moscou são geladas, e eu acordei com meu travesseiro molhado de suor, não é normal você ver uma pessoa suada nesse frio maldito e acredite doutora... eu não ligo pra uma mulher a não ser que seja de extrema importância e além do mais, não estou querendo atenção e sim ajuda.
 Me surpreendi quando ela ainda estava na linha.
- Aqui está meu endereço. Rua dezesseis 390, bairro Nigthgale. Próximo ao décimo sexto distrito policial e... eu vi sua tatuagem no pulso, você fez no mesmo estúdio que eu trabalho. Eu moro duas ruas atrás do estúdio.
 Desliguei o celular sem esperar sua resposta, mas ainda sim esperado veemente sua chegada.

terça-feira, 1 de março de 2016

Capítulo 3: Connor Bouchard

A conversa havia sido muito abaixo do que eu pretendia. A mente de Connor é como uma pedra e para ter a chance de perfurar cada parte para melhor compreender a peça rara em mãos, é necessário ter a permissão do dono, o que para mim já estava ficando complicado demais para se manter na zona profissional. 
- Olá... - sussurrei para a recepcionista que havia me cumprimentado mais cedo. 
- Doutora Harris! - disse felizarda demais. 
- Você viu um homem sair daqui agora a pouco? - perguntei direta demais.
- Hm... - ela fez beicinho decepcionada consigo mesmo da provável primeira pisada de bola.
- Não tem problema se não lembrar. Estou apenas checando. 
- Saiu um homem tem nem cinco minutos daqui. Deixou o crachá de paciente e saiu. 
- Sabe se ele pegou algum meio de transporte? - insisti.
- Não, senhora... - outro beicinho. 
- Tudo bem! - dei as costas para a moça. Pude ouvir alguns fungados suspeitos e tratei de melhorar o dia de alguém - Você foi ótima, viu?! - esbocei meu melhor sorriso forçado.
- Como?! - impressionou-se.
- Você foi a única capaz de se recordar do último paciente a sair da Clínica. Meus Parabéns! - menti descaradamente.
- SÉRIO? 
- Cloe! - Jack gritava no hall que dava acesso ao corredor de sua sala. 
- Preciso ir. - sai às pressas agradecendo mentalmente à Jack por me tirar daquela situação bizarra e odiando a próxima conversa.

Entrei na sala e vi Jack andando de um lado para o outro. 
- Então, eu não falei? - ele começou.
- O quê? 
- Ele é um drogado. Alguma das substâncias devem ter mexido tanto com os neurônios dele que pode ter trazido essa falta de lucidez...
-... Porque você não faz o trabalho todo então? - murmurei. 
- Cloe, está na cara!
- Eu não tirei minhas próprias conclusões ainda, Jack.
- Achei que a Psicologia não se baseiasse em opiniões. - deu risada.
- Realmente. Por isso preciso comprovar as teses cientificamente, se você deixar, claro. - ironizei.
- O que ele te disse? - perguntou.
Olhei para a janela outra vez. 
- Nada. - disse derrotada.
- E acha que irá conseguir? 
- Você confia em mim? - perguntei sentindo uma onda de excitação. 
- Harris... 
Continuei a olhá-lo séria, na espera de sua confirmação. Só precisava do sim.
- Confio. - balançou a cabeça negativamente. 
Sorri para ele e em seguida voltei a me concentrar no dossiê de Connor Bouchard feito exclusivamente por mim em quinze minutos de conversa superficial com meu novo paciente. 
 
Cheguei em casa por volta das nove da noite, a neve e o frio conseguiram se superar. Passei o resto do meu dia pensando no caso de Connor. Minha secretária havia me passado a agenda de todo o mês e nele só continha consultas com Connor a cada dois dias, incluindo o final de semana. Não jantei, preferindo ir direto para o banho. Deitei na cama com o celular em mãos. Disquei os números com exatidão que continha no Dossiê. 
- Alô?! - uma voz embargada.
- Olá, está bebendo? - perguntei.
- Quem é?! - disse áspero.
- Responda minha pergunta, Connor. - insisti. Ouvi alguns resmungos como se ele próprio não estivesse acreditando na minha ligação àquela hora da noite. 
- Não é da sua conta!

E então desligou na minha cara. Desliguei o telefone sem dar a chance dele retornar. Com as luzes apagadas, televisão desligada, pude finalmente ficar a sós com minha própria mente. Connor Bouchard não era um caso difícil de ser solucionado, mas era um caso tão isolado que me obrigava a fazer certas coisas que não é necessariamente tarefa de uma psicóloga. Minha curiosidade e a tentação em ajudar as pessoas fazendo tudo ao meu alcance sempre falou mais alto, e agora, não teria como ser diferente.