Não é fácil esconder algo, mas com anos de prática, escondendo nossas frustrações, receios e até mesmo nossos medos, acaba que tornando uma atitude natural. Como se não notassemos, de repente, eu viro uma capsúla na qual ninguém tem acesso. Entrar na minha mente foi um jeito prático de mostrar ao Connor de como se controlar, mas... Havia algo de muito errado. Meu paraíso do sonho sempre começava na fazenda do meu pai, meu lugar favorito, mas naquele momento eu estava sendo engolida pelos vultos negros, sentindo o que Connor sente quando passa por isso. Era algo familiar, mas nenhum pouco agradável. Quando Connor saiu mandando que eu fosse me encontrar com ele às nove em uma espécie de"encontro", eu pensei em dezenas de coisas.
Voltei a conectar todos os fios em mim e desta vez viajei para o paraíso do meu sonho sozinha. Era um risco e as normas da clínica não autorizava esse tipo de procedimento sem que alguém estivesse presente. Mas dane-se, eu estava muito atordoada com aquilo tudo. Talvez se ficasse louca com o procedimento eu pudesse entender a loucura de Connor.
Estava sentada no balanço quando o céu amanhecia e um lindo sol reluzia em meu rosto. As luzes solares clareavam meus cabelos castanhos, meu rosto parecia dourado, as folhas liberavam um cheiro doce e um imenso campo bem cuidado se apresentava à minha vista. De canto, a fazenda do meu pai. Após isso voltei à antiga Delegacia, com o mesmo paciente esquizofrenico. Peguei o prontuário e olhei todos os diagnósticos. E se Connor for esquizofrenico? Era uma pergunta que martelava na minha mente. Nos casos mais graves, os pacientes podem ver ou ouvir coisas que não existem. Porém do Connor era um pouco mais acentuado, a realidade era seus sonhos e seus sonhos eram conturbados para qualquer outro, menos para ele. Joguei o prontuário na mesa e voltei para a minha realidade. Verifiquei tudo e eu estava sã. Sai da sala às pressas. Era hora de pegar pesado.
- Jack! - anunciei entrando sem nenhuma formalidade.
- Você já foi mais educada, Cloe. - murmurou, estava cochilando na poltrona.
- Olhando o seu estado, acho que foi uma bela entrada triunfal. - joguei os arquivos em cima de sua mesa, levantando todo o pó das pastas, fazendo Jack ter um ataque de espirros.
- Santo Deus, Cloe! Isso está uma imundice.
- É só pó, Jack. Pegue algumas luvas para nós, vamos! - prendi o cabelo num rabo de cavalo mal feito, mas o que importava é que estava preso.
- Pra quê isso tudo? - jogou as luvas para mim.
- São arquivos restritos de antigos pacientes da Clínica de Boston.
- Boston?! Mas isso foi na época do naufrágio do Titanic. - bufou.
- Sim, arquivos antigos, imundos como você mesmo disse. Por isso todo cuidado com eles, são nossos experimentos... - falei abrindo a pasta devagar. Estava amarelada, com manchas parecida como de café em toda a capa. Era um prontuário da primeira Clínica Densey fundada em Boston, em 1909, três anos antes do Titanic afundar no Atlântico.
- Certo, pra quê isso tudo? - perguntava de novo.
- Bom, naquele tempo aparecia muitos casos sérios que a Psicológia não era tão... Precisa nos diagnósticos.
- Sim, nós evoluimos e hoje podemos entender a mente humana com mais precisão. A ciência melhorou em quase 100%.
- É, sabemos... - dei de ombros, passando as folhas até o prontuário de Matilde Stuart - Essa mulher teve um caso que talvez a Psicológia poderia arriscar como um princípio de Esquizofrenia e Transtorno Bipolar, procurei nos arquivos digitalizados e o caso dela é semelhante com o de Connor Bouchard.
Jack me olhava inexpressivo.
- Hm... - soltou depois de alguns minutos tensos - Então Connor é esquizofrenico?!
- Não, mas a esquizofrenia é o que mais se aproxima dele. Acho que Connor é um caso não solucionável... Pela ciência.
- Combinamos que você não voltaria com esse assunto.
- Olha, quem foi Matilde Stuart?
- Uma mulher louca, que se matou porque segundo ela, a morte era o melhor lugar para se estar.
- Segundo o prontuário digitalizado, Jack! O contéudo não é o mesmo que está no arquivo restrito...
- Ele foi resumido, mas isso não importa, é um caso encerrado, Matilde era esquizofrenica. Achava que a confusão do paraíso pós a vida era o lugar para se estar. Então deixe ela lá.
- Ela se automedicava para morrer. Já esteve morta por três vezes, tentou o suícidio, é a única pessoa no mundo que conseguia sentir a morte, Jack. Entende o que eu falo? Ela morreu por 6 minutos e voltou dizendo como era...
- ...Ela estava blefando! Assim como Connor deve ter tido um trauma de vida e agora acha que os sonhos dele são a realidade verdadeira. Deixe-o sonhar.
- Sonhar não faz mal a ninguém, mas quando a pessoa confunde, como Matilde confundiu a vida com a morte, isso se torna perigoso.
- Dê a ele o medicamento e faça consultas uma vez por semana. Connor Bouchard é um caso resolvido.
- Você é um péssimo profissional! - bati o punho na mesa.
- Harris! - gritou.
- Eu quero acesso aos arquivos restritos da ala psiquiatra.
- Se são restritos... - tentou impedir.
- Bom, eu pedi acesso. Só me dê o acesso, Jack. - insisti.
- Você quer o dossiê completo? - sentou-se na poltrona cansado.
- Da Matilde completo e se puder, quero da Clínica de Boston.
- O quê?! Não havia nada com a Clínica! - berrou.
- Então porque foi fechada, Jack?!
- Então porque foi fechada, Jack?!
- Eu não sei, isso foi à mais de 100 anos, Cloe. Mas que droga!
- Me dê o acesso, Jack. Somente isso.
Desci para o arquivo morto da Cliníca Densey, já era por volta das sete da noite. Eu tinha que fazer aquilo, Connor teria que me desculpar pelo furo. Acendi as luzes eletrônicas e procurei o dossiê completo de Matilde Stuart. Estava na ala M, quando finalmente encontrei seus arquivos. Coloquei no carrinho junto com as partes restritas de todos os prontuários que eu havia jogado na mesa de Jack. Estava voltando para a ala C, quando passei de relanche pelo arquivo Caroline Bouchard, ano 1913.
Puxei o arquivo e folhei as páginas. Uma mulher com Transtorno Pós Parto. Caroline tinha 19 anos quando deu a luz a seu filho Donald Bouchard, que tinha sido entregue ao serviço social da cidade. Caroline havia sido estrupada e encontrada perto de uma antiga casa abandonada. Segundo os registros, Caroline tentou se matar e acabou sendo levada para a Clínica Densey mesmo grávida. Ela faleceu aos 24 anos, estava dormindo quando veio ao óbito. Há centenas de Bouchard pelo mundo, mas algo parecia familiar demais naquele dossiê. Coloquei o arquivo de Caroline no carrinho, peguei o dossiê da Clinica Densey e sai do arquivo morto às pressas. Eu tinha que vê Connor.
Enquanto me arrumava eu lia os registros de Caroline. Foi o único dossiê que decidi levar para casa. Seu filho foi adotado aos 3 anos de idade por uma família norte-americana. Não há mais registros sobre o paradeiro do garoto. Terminei de me vestir por volta das oito e quarenta da noite, já estava atrasada. Até chegar Avenida Kennedy Bridge ia demorar meia hora. Arrumei minha bolsa e coloquei a capa do prontuário dentro de uma pasta para mostrar ao Connor, se caso minhas suspeitas fossem certeiras. Cheguei no estacionamento e vi Connor saindo do restaurante falando sozinho, estava bravo, claro. Sai do carro calmamente e ele cruzou os braços quando me viu, dando risada. Não podia reclamar de nada, deu sorte que eu ainda apareci mesmo com dez minutos de atraso.
- Eu sabia! - disse com ar triunfante.
- Eu não ia vim. - falei fingindo meiguice.
- Ah é?! E o que te fez vim? - falou maliciosamente.
- Com certeza não foi seu jeito repugnante.
- Você é chata, Harris! - fechou a cara.
- E você é um bêbado tarado. - me irritei.
- Ainda não bebi. - bufou.
- Vim para falarmos do seu problema.
Falei entrando no restaurante deixando Connor frustrado logo atrás de mim. Ele me apontou a mesa que estava e nos sentamos.
- Não te convidei pra falar do meu problema sem solução.
-Ok, mas eu vim por causa disso. Só me responda uma coisa.
- Respondo se você tomar um vinho comigo.
Olhei pra cara dele com vontande de dá um soco.
- Você não bebe nem vinho? - perguntou incrédulo.
- Não com meus pacientes, Connor. - olhei ao redor.
- Não sou seu paciente, Harris... - falou baixo - Ande, pergunte!
- Conhece algum Donald Bouchard? - mordi o lábio ansiosa.
- Quê?! - fez cara estranha - Donald?! Bouchard?
- Ah, deixa... - falei frustrada.
- Aonde você tirou isso, Cloe?! - ainda estava fazendo a careta estranha.
- Ahh... Nada, achei que... Deixa quieto. - levei as mãos a cabeça, exausta.
- Eu tinha um avô, mas o nome dele era Richard Donald Bouchard. Meu pai que se chamava Donald Bouchard.
Olhei para Connor incrédula, agora era minha vez de triunfar.
- Bingo! - falei sorrindo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário