terça-feira, 1 de março de 2016

Capítulo 3: Connor Bouchard

A conversa havia sido muito abaixo do que eu pretendia. A mente de Connor é como uma pedra e para ter a chance de perfurar cada parte para melhor compreender a peça rara em mãos, é necessário ter a permissão do dono, o que para mim já estava ficando complicado demais para se manter na zona profissional. 
- Olá... - sussurrei para a recepcionista que havia me cumprimentado mais cedo. 
- Doutora Harris! - disse felizarda demais. 
- Você viu um homem sair daqui agora a pouco? - perguntei direta demais.
- Hm... - ela fez beicinho decepcionada consigo mesmo da provável primeira pisada de bola.
- Não tem problema se não lembrar. Estou apenas checando. 
- Saiu um homem tem nem cinco minutos daqui. Deixou o crachá de paciente e saiu. 
- Sabe se ele pegou algum meio de transporte? - insisti.
- Não, senhora... - outro beicinho. 
- Tudo bem! - dei as costas para a moça. Pude ouvir alguns fungados suspeitos e tratei de melhorar o dia de alguém - Você foi ótima, viu?! - esbocei meu melhor sorriso forçado.
- Como?! - impressionou-se.
- Você foi a única capaz de se recordar do último paciente a sair da Clínica. Meus Parabéns! - menti descaradamente.
- SÉRIO? 
- Cloe! - Jack gritava no hall que dava acesso ao corredor de sua sala. 
- Preciso ir. - sai às pressas agradecendo mentalmente à Jack por me tirar daquela situação bizarra e odiando a próxima conversa.

Entrei na sala e vi Jack andando de um lado para o outro. 
- Então, eu não falei? - ele começou.
- O quê? 
- Ele é um drogado. Alguma das substâncias devem ter mexido tanto com os neurônios dele que pode ter trazido essa falta de lucidez...
-... Porque você não faz o trabalho todo então? - murmurei. 
- Cloe, está na cara!
- Eu não tirei minhas próprias conclusões ainda, Jack.
- Achei que a Psicologia não se baseiasse em opiniões. - deu risada.
- Realmente. Por isso preciso comprovar as teses cientificamente, se você deixar, claro. - ironizei.
- O que ele te disse? - perguntou.
Olhei para a janela outra vez. 
- Nada. - disse derrotada.
- E acha que irá conseguir? 
- Você confia em mim? - perguntei sentindo uma onda de excitação. 
- Harris... 
Continuei a olhá-lo séria, na espera de sua confirmação. Só precisava do sim.
- Confio. - balançou a cabeça negativamente. 
Sorri para ele e em seguida voltei a me concentrar no dossiê de Connor Bouchard feito exclusivamente por mim em quinze minutos de conversa superficial com meu novo paciente. 
 
Cheguei em casa por volta das nove da noite, a neve e o frio conseguiram se superar. Passei o resto do meu dia pensando no caso de Connor. Minha secretária havia me passado a agenda de todo o mês e nele só continha consultas com Connor a cada dois dias, incluindo o final de semana. Não jantei, preferindo ir direto para o banho. Deitei na cama com o celular em mãos. Disquei os números com exatidão que continha no Dossiê. 
- Alô?! - uma voz embargada.
- Olá, está bebendo? - perguntei.
- Quem é?! - disse áspero.
- Responda minha pergunta, Connor. - insisti. Ouvi alguns resmungos como se ele próprio não estivesse acreditando na minha ligação àquela hora da noite. 
- Não é da sua conta!

E então desligou na minha cara. Desliguei o telefone sem dar a chance dele retornar. Com as luzes apagadas, televisão desligada, pude finalmente ficar a sós com minha própria mente. Connor Bouchard não era um caso difícil de ser solucionado, mas era um caso tão isolado que me obrigava a fazer certas coisas que não é necessariamente tarefa de uma psicóloga. Minha curiosidade e a tentação em ajudar as pessoas fazendo tudo ao meu alcance sempre falou mais alto, e agora, não teria como ser diferente. 

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