terça-feira, 1 de março de 2016

Capítulo 2 - A conversa


- Então, vou deixá-los a sós. - pude ver um rápido olhar de preocupação de Jack para a doutora, que mal pareceu se importar.
- Então, Connor. Vamos conversar. - a doutora forçou um sorriso amigável no rosto que eu não respondi e apresentou a poltrona onde eu me sentaria. Assim fiz, ela recolheu um pequeno bloco de notas de cima de sua mesa e sentou defronte para mim com as pernas cruzadas.
- Tudo bem, Connor. Me fale da sua vida, acontecimentos até aqui.
Eu continuava distraído. Apesar de ter frequentado vários outros consultórios de psicólogos e psicólogas, esse lugar me parecia um pouco mais despojado e espontâneo. Por mais que a doutora Cloe forçasse o sorriso era nitidamente um tom agradável desenhado em seus lábios, não notei se era uma mulher Russa ou não, entretanto, a bela era bem acentuada. Algo nos olhos daquela mulher diziam que hoje e esse momento, era o lugar que eu devia estar hoje. Ou sera simples perspectiva de pensamento? Talvez.

- Connor... então? - ela firmou a postura na poltrona. Ela ainda me olhava, porém agora sem sorriso.
- Ahm?
- Okey. Vamos começar do começo, certo?! Sua vida, me fale dela.
- Eu vim de Liverpool, morava em uma casa grande com meus pais, tios, e avôs. Sou filho único.
- Algo mais? Na sua ficha diz que teve envolvimento com drogas durante a adolescência. - mesmo que não sorrisse. A doutora disse aquilo com um ligeiro toque presunçoso - Pode me dizer sobre isso?
- Com dezesseis anos comecei a andar com os traficantes da minha escola. Eu queria fazer algum dinheiro, algo meu.
- Então procurou isso, fora das margens da lei, hrm... entendi. - ela se endireitou na poltrona e anotou algo no bloco de notas.
- Não me julgue por algo que fiz no passado, doutora. E como a senhorita vê, não estou mais envolvido com isso.
- Alguma clínica de reabilitação, talvez?
- Vontade própria. Em um dia eu estava numa esquina, colocando todo tipo de substâncias no corpo, então... simplesmente me levantei e fui pra casa. No dia seguinte sai para procurar um emprego.

A doutora anotou mais alguma coisa em seu bloco de notas.
- E como você e sua família vieram para Moscou? - até o momento percebi que Cloe estava fazendo perguntas avulsas e "normais".
- Meu pai era da polícia federal Inglesa, e ele foi mandando para trabalhar na Rússia. A polícia cobriu os custos da viagem da nossa família.
- Então, seu envolvimento com as drogas, foi aqui mesmo, em Moscou?
- Exatamente.
- Saiu de Liverpool com quantos anos?
- A os doze anos. No ano seguinte... meu pai faleceu em trabalho.
Um silêncio desconfortável seguiu adiante na sala e tomou força por mais alguns segundos. Cloe ajustou mais uma vez a postura na poltrona e alinhou os cabelos.
- Está se sentindo desconfortável, doutora?
Ela se voltou para mim como se não acreditasse no que ouvisse. Talvez eu tivesse dito um absurdo.
- Perdão?
- O medo é relativo, doutora. Existem várias formas de se sentir medo, talvez seu medo seja de não ter me conhecido ainda, me corrija se eu estiver correto, mas não seja óbvia.
- Como o senhor disse, algo relativo não existe uma forma concreta. - eu havia acabado de lhe dar uma chave e ela captou bem. A doutora sabia fazer muito bom uso de seus recursos.
- Em qual capitulo da minha vida estamos, no fim? - questionei como se já soubesse a resposta - me diga doutora.
- A vida é feita de capítulos, um capítulo ruim não quer dizer que a vida acabou. - ela largou sua caneta e bloquinho. A forma como ela se colocou na poltrona pareceu ainda mais interessada ou simplesmente achou que eu fosse me matar.

Me limitei a sorrir, queria testar os limites da minha sexta psicóloga, só naquele ano.
- Mas quando deixamos o monstro entrar em um desses capítulos, não conseguimos nos livrar dele.
- Então é isso!? Sua linha de sonhos corriqueiros são perturbadas por um "monstro"? - ela me fitou como se tudo aquilo fosse uma maldita perca de tempo.
 - Passou muito longe, doutora.
Aquilo parecia o cúmulo para a mulher, achei que ela fosse dizer que o tempo da consulta havia acabado, mas apenas voltou a cruzar as pernas e se limitou a olhar em meus olhos.
- Entendo... então pode me dizer o que recorre nesse sonho?
Me levantei e alinhei a jaqueta no corpo.
- Não é o momento, doutora.
- Ainda temos meia-hora, Connor.
- Não se preocupe, a senhorita me instigou a voltar. Vou deixar que descubra por si mesmo.
Deixei que Cloe ficasse em silêncio na sala, não queria parecer mal educado mas eu não podia simplesmente deixar que a doutora me visse submisso ao seu seu intelecto. Por mais que algo naquela mulher tivesse mexido de alguma forma comigo, de longe emocional. Mas sim pelo psicológico. Na recepção marquei a próxima consulta para depois de amanhã. Podia afirmar que a mulher e não a doutora. Cloe Harris, havia entrado em um mundo de real psicodélica.




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